O menino que não sabia ler

O Germano, como quase todos os meninos da sua idade, era alegre e brincalhão. Havia no entanto uma pessoa já idosa, com quem ele muito gostava de brincar e conversar, era o seu avô paterno, o ti João da Cerca. Viúvo há muitos anos, apesar da idade avançada continuava a morar na sua casinha, pequena e modesta, mas para ele a melhor.

O Germano, como a maioria das crianças do seu tempo, não sabia ler nem escrever; mas ele tinha os seus sonhos e, fazia projetos para quando fosse grande, conversava muito com o avô, que o escutava com toda a atenção e a alegria de quem tem por companhia alguém de quem muito gosta.

Quando chegava a sua vez de falar, o avô, fazia uso de toda a sabedoria que acumulara ao longo dos seus noventa e três anos de idade. Era lindo de ver e ouvir a conversa que eles mantinham, um com uma vontade enorme de saber coisas, e o outro, com uma vontade ainda maior de transmitir conhecimentos ao netinho. Respondia a todas as perguntas que este lhe fazia, com a paciência de alguém que está a viver momentos de rara felicidade. O tempo foi passando, e numa manhã de Abril tudo mudou, a morte chegou, e o avô João partia para sempre, deixando em todos que o conheciam a sensação de ter morrido feliz.

O Germano, por essa altura com treze anos de idade, foi o que mais sentiu a perda do avô. Nas conversas com quem privava mais de perto dizia, quando for maior, hei -de ser como o meu avô João, quero casar, ter filhos e netos e quando chegar a velhinho, brincar com eles e ensinar-lhe muitas coisas como o meu avô me ensinou.

O tempo passou, e o Germano viria a casar aos dezanove anos com a Guilhermina, tiveram dois filhos a quem com muito esforço, conseguiram que eles alcançassem formação superior.

O Pedro licenciou-se em direito e abriu escritório na cidade do Porto, aí ficando a trabalhar, gostava muito dos pais mas raramente podia estar com eles. O Francisco formou-se em agronomia e arranjou trabalho no Ministério da Agricultura em Lisboa. Passado pouco tempo, casou com uma mulher algarvia, o que dificultava ainda mais a ida à terra dos pais no Alto Minho. O tempo foi passando e um dia, também o Germano ficou viúvo, se até então na companhia da Guilhermina fora muito feliz, depressa os sonhos de menino se desmoronaram. A morte da esposa deixou-o bastante triste e só, raramente podia ver os filhos e os netos de quem muito gostava.

Atendendo à vida demasiado preenchida do advogado Pedro, assim como do engenheiro Francisco da Cerca, estes não podiam ter o pai com eles, mas para ele, queriam aquilo que lhes parecia ser o melhor. Arranjaram-lhe na cidade de Valença lugar num Lar que acharam acolhedor e com bom serviço. Mas o velhinho Germano, nas poucas conversas que tinha no Lar com as outras pessoas, de vez em quando ainda falava do seu avô João da Cerca e dos netos que quase não conhecia, poucos meses depois viria a falecer. Diziam os que com ele conviveram, que o pouco tempo que lá esteve, deixava transparecer o desânimo em cada olhar, próprio de quem apenas tem a tristeza e a saudade por companhia.

António E J Ferreira

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