O tempo que ninguém queria

O meu tempo de guerra na Guiné (1)

Depois de doze meses de tropa na Metrópole, era chegada a minha vez de partir para a guerra, a juntar aos doze já passados foram mais vinte seis e alguns dias na Guiné.

Dia vinte e dois de Janeiro de 1972, pela madrugada fui levar a minha esposa ao hospital do Sitio da Nazaré, (ao tempo a maternidade que dava apoio às parturientes da nossa terra) onde poucas horas depois viria a nascer o nosso primeiro filho, o Paulo.

Ao fim da tarde fui à visita, mesmo sabendo não os voltar a ver nos tempos mais próximos… na hora da despedida disse apenas até amanhã! Embora soubesse que na manhã do dia seguinte haveria de tomar o autocarro até Lisboa a fim de embarcar para a Guiné. E assim aconteceu, cheguei a Lisboa por volta das catorze horas. Apresentei-me no quartel «Depósito Geral de Adidos»,onde me foi dito que a nossa partida estava previsto para as cinco horas da madrugada, como não havia transportes rápidos, como acontece agora, nada mais me restava que não fosse passar esse tempo divagando pela cidade de Lisboa, tentando esquecer, esquecer tudo… creio que por momentos cheguei a esquecer-me que existia!

Fui até à rua Gama Barros, onde tinha umas pessoas de família, estive por lá até próximo da meia noite, como a viagem ia ser feita de avião foi-me pedido por um familiar, para levar dois frangos assados para o irmão que estava a prestar serviço no Hospital Militar de Bissau, estava muito frio, (á hora da partida estavam quatro graus em Lisboa), fiz o trajecto da rua Gama Barros até ao quartel na Calçada da Ajuda a pé, levando comigo apenas os frangos que me tinha comprometido a entregar quando chegasse a Bissau. Era meia noite, mais ou menos a meio da avenida João XXI, estava uma porta aberta de onde saiu um cão «pastor alemão» investindo contra mim, não sei se ele teria vontade de me fazer mal, mas o medo que tive foi muito, quando chegava perto de mim eu parava, ele parava também mas não deixava de ladrar, eu começava a andar ele investia de novo, eu já não sabia que fazer, pensei… e a única maneira que via de me ver livre dele talvez fosse dar-lhe os frangos, mas será que a pessoa com quem me havia comprometido de os levar ia acreditar nesta verdade que cheirava a mentira?…Era natural que deixasse dúvidas, mas à medida que me ia afastando da porta de onde o cão tinha saído, ele voltou para casa, para meu grande alívio e os frangos lá chegaram ao destino.

Cerca das cinco horas da manhã embarquei no avião « creio ter sido um D.C.6» que me levou até Bissau, tendo antes feito escala em Cabo Verde no então aeroporto dos Espargos na ilha do Sal, viajou no mesmo avião uma enfermeira pára-quedista que eu desconhecia existirem «ignorância minha». Foi para mim o primeiro grande choque de temperaturas, em Lisboa estavam quatro graus, ao chegar a Cabo Verde estavam trinta, o primeiro aviso que a partir dali tudo ia ser diferente, passado uma hora voltamos a voar até Bissau, onde à tardinha aterramos no aeroporto de Bissalanca.

Ao desembarcar foi para mim a confusão total, uma temperatura elevadíssima para quem horas antes partira de um sítio muito frio, ver os nativos das mais variadas etnias trajando de forma impensável para mim, carregados de amuletos, brincos nas orelhas, arames no nariz, nos braços, outros com a cara pintada…. coisa por mim nunca antes vista e, a que eu e alguns menos esclarecidos, atribuíamos a povos primitivos; (que dizer agora da nossa juventude!? Quando saímos do aeroporto estavam à nossa espera viaturas militares que nos levaram para o Depósito Geral de Adidos em Brá, onde eu viria a estar cerca de um mês.

Depois de me ter apresentado no quartel, fui levar os frangos que horas antes tivera na iminência de dar ao cão, a cada minuto que passava, a confusão na minha mente era ainda maior… para além da temperatura, os muitos negros que eu não estava habituado a ver, todo aquele movimento militar que eu também não fazia ideia que fosse assim. Viaturas carregadas de homens com o respectivo material de guerra, entrando e saindo da cidade, os helicópteros subindo e descendo junto ao hospital militar, soldados por todo lado, uns, prestando serviço em Bissau, outros que vinham de férias para a cidade, outros ainda para a metrópole e, alguns que se encontravam à espera de embarque para regressar ao mato. E os que tinham a comissão cumprida, e esperavam o dia mais desejado… o do regresso à Metrópole.

Durante cerca de um mês estive neste ambiente sem ter qualquer noticia da terra, com a agravante de não saber nada da minha mulher e do meu filho, que tinham ficado na maternidade e eu apenas tinha visto durante alguns minutos. Depois chegou o dia de partir para o mato onde me fui juntar à minha companhia, que tinha seguido alguns dias antes por via marítima tendo ido tirar a I.A.O «instrução de adaptação operacional» nos subúrbios de Bissau.

(continua)