Folclore

Há já alguns anos que não assistia a festivais de folclore. No passado fim-de-semana decidi ir ver o festival de Alcobaça, organização do rancho folclórico da minha terra, os Molianos, não me foi fácil tal decisão. Os motivos para que assim fosse eram muitos, mas, o principal era ter prometido a mim mesmo não falar mais de grupos folclóricos, quando muito falar só de folclore. Mas, uma vez que arranjei coragem para ir ver, não podia deixar passar sem comentar parte daquilo a que assisti, digo parte, porque vou falar apenas do grupo da minha terra, e do que vi e não gostei.

Os grupos podem fazer nas suas atuações aquilo que os seus responsáveis entenderem, o que não devem é apresentar “coisas” como tendo sido deixadas pelos nossos antepassados, quando as mesmas nunca fizeram parte dos seus usos e costumes; é bom lembrar que quando falamos em nome de alguém que não nos deu permissão para o fazer, pode ser grave, mais grave ainda, é, quando já não estão connosco e como tal não se podem defender repondo a verdade.

Há algumas dezenas de anos, fiz parte de um grupo que efetuou um trabalho de pesquisa e recolha de tudo que tinha a ver com os usos e costumes, não só da nossa aldeia, mas também de algumas aldeias vizinhas, procurando saber como era a vida da nossa gente nos fins do século dezanove princípios do século vinte, foi também a pensar nessas pessoas, que me levou a escrever e publicar este artigo.

Foram muitas aquelas com quem falámos e, que de forma acolhedora e alegre sempre nos receberam; entre elas, destaco a ti´ Ana Angélica que nos cantou várias cantigas, o ti´ António Pavoeiro à data a viver em Caldas da Rainha, já com mais de noventa anos de idade, a sua irmã Maria Pavoeiro já próximo de fazer cem anos, o António Entrudo que tinha deixado a nossa aldeia há já muito tempo, tendo ir viver para Azoia de Leiria, onde fomos falar com ele, era o único que sabia a cantiga aos dezoito rapazes da nossa terra, que tinha sido notada por um senhor  de nome António Pereira, também nascido no último quartel do século dezanove, o acordeonista senhor João Pedro, que fazia muitos “balhos” na nossa terra, há data a viver em Lisboa, a Lucinda Fazendeira, a Emília Pereira, já velhinha, deitada na sua cama que se prontificou a falar connosco da sua vida, dizia ela, que muitas vezes andou a cortar mato com o marido na serra, descalça, quando sofriam um corte nos dedos a forma de tratar a ferida, era colocar a parte de fora de uma fava, depois de seca, sobre o golpe. Muitas outras  deram o seu contributo Ver aqui no trabalho então levado a cabo, por vezes aconteciam coisas caricatas vistas nos tempos de agora, mas era a única forma de conseguir de algumas a informação que procurávamos, recordo-me que quando recolhemos a moda serrana tivemos de ir para dentro de uma pocilga “vazia” fazer a gravação, porque a senhora não queria que as netas que estavam por perto a ouvissem cantar.

Seria quase impossível a esta distância no tempo, lembrar o nome de todos  que colaboraram connosco, não podemos no entanto esquecer essas pessoas nem aquilo que  nos disseram acerca da nossa terra e o seu modo de vida naquele tempo. Os nomes aqui lembrados são aqueles porque eram mais conhecidos.

Alguns dos pontos menos corretos que o grupo apresentou: 1º começo pelo fandango, dançava-se na nossa aldeia, normalmente por um par, homem e mulher e, não eram muitos os que se atreviam a tal,  entre os presentes eram quase sempre os que melhor  dançavam  a iniciar, as outras pessoas olhavam atentamente os dançadores, quando havia no balho mais rapazes que sabiam dançar o fandango, pediam àquele que estava a dançar para lhe dar o lugar, é pá dá aí uma bucha, a dança continuava sem paragens enquanto o homem ocupava o lugar do outro,  a rapariga normalmente não era substituída,  porque as outras que não dançavam assim tão bem,  não arriscavam a ficar mal vistas, como dizia a nossa gente naquele tempo. Não foi assim que o rancho o apresentou.

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Das senhoras que vemos na foto, a Maria Branca com noventa e um anos, e a Maria Rosa com oitenta e sete, não sabiam dançar o fandango, a Maria Rita agora com oitenta e cinco anos, era uma das que, na nossa aldeia, melhor o dançava.

2ºCantaram uma cantiga a que deram o nome de: cantar ao desafio entre um homem e uma mulher, com acompanhamento em jeito de coro por alguns componentes do grupo. É verdade que se cantava ao desafio na nossa aldeia, não só nos “balhos”, mas em qualquer sítio onde estivessem pessoas e o ambiente o permitisse, nas festas, nas tabernas aos domingos à tarde, nas matanças do porco, algumas vezes mesmo enquanto trabalhavam no campo. Mas o cantar ao desafio daquele tempo nada tinha ver com aquela maneira de cantar como eles o fizeram, acontecia de forma espontânea sempre que alguém iniciava a cantiga desafiando outro,  a resposta não demorava, podia ser entre dois homens ou duas mulheres, mas era sempre mais do agrado das pessoas quando acontecia entre um homem e uma mulher, os que estavam a ouvir apenas se manifestavam no fim da quadra quando um dos cantadores ou cantadeiras levava a melhor sobre o outro; a cantar ao desafio era possível dizer coisas que de outra forma naquele tempo não era permitido, talvez uma das razões para que  essa maneira de cantar fosse tão do agrado da nossa gente.

3º Enquanto o grupo dançava, um menino com um carro de costas, andou sempre junto aos dançadores, puro disparate, os meninos brincavam com o carro de costas, eu ainda brinquei, mas não na sala de “balho”, naquele caso se estivesse a um canto do palco brincando com outros meninos, aceitava-se, assim não, muitas outras coisas necessitavam de correção mas vou ficar por aqui.

Nunca é demais lembrar a muita gente que anda por aí dirigindo grupos que se intitulam de folclóricos, que se querem inovar, tem que recuar no tempo, ou então não digam que antigamente na sua aldeia era assim. Podem fazer o que muito bem entenderem, mas sem ofender a memória dos seus antepassados, dando espetáculo, recebendo aplausos que os deixa muito satisfeitos e, também aos políticos que em nome da defesa da cultura popular, os apoiam, a pensar nos votos que um dia lhe há – de dar muito jeito.

No que diz respeito ao grupo de Molianos, em poucos dias pode corrigir esses disparates, porque existe um trabalho de muitos anos que assim o permite. Mas andam por aí muitos chamados ranchos folclóricos, que em vez de folclóricos assentava-lhes melhor o nome, rancho de passeantes…

Molianos 17/07/2013

António EJ Ferreira

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