Há pessoas a quem a história reserva sempre um lugar


Padre Boaventura

P27O senhor padre Boaventura Domingos Vieira, era natural de Santa Catarina da Serra onde nasceu a 1 de janeiro de 1929. Faleceu no dia vinte e nove de agosto de 2008 no Hospital de Santo André em Leiria. Tinha setenta e nove anos de idadade

Quem quiser conhecer como era a vida nos fins da década de cinquenta e princípios da de sessenta do século passado na aldeia de Molianos, vai encontrar como grande referência o senhor padre Boaventura.

santos

Foto tirada na inauguração da sede do rancho folclórico dos Moleanos. O primeiro da esquerda é o senhor padre Boaventura, ao centro o autor deste texto e à direita o senhor Augusto Gomes dos Santos, presidente da federação de folclore português.

Por altura da vinda do padre Boaventura para a freguesia de prazeres de Aljubarrota, os Molianos era uma aldeia pobre e isolada de tudo que era progresso. Esquecida pelos responsáveis camarários e outros a quem cabia olhar pela causa pública. Como se isso não bastasse, existia ainda uma rivalidade por vezes violenta, entre as várias regiões que compunham aquela comunidade, com a agravante de a mesma estar repartida por duas freguesias, a parte norte pertencia à freguesia de Prazeres de Aljubarrota, a sul à freguesia de Évora de Alcobaça, o que fomentava ainda mais as divisões. Só os acontecimentos religiosos e outras atividades festivas junto à capela iam conseguindo amenizar.

Com a vinda do senhor padre Boaventura para a freguesia de Prazeres de Aljubarrota, as coisas começaram “ainda que timidamente” a tomar um novo rumo. Passado pouco tempo de ter assumido o cargo religioso na freguesia, descobriu nos Molianos um terreno fértil para desenvolver e, pôr em prática toda a sua criatividade ao serviço desta comunidade até então esquecida, “pegar” na parte boa desta gente e fazer obras que à data pareciam impossíveis de realizar.

Numa aldeia onde não existia quase nada, a não ser a vontade de um povo para trabalhar e fazer coisas, mas, onde as rivalidades existentes, a falta de dinheiro e outras condições consideradas indispensáveis, criaram nas pessoas a ideia que nada era possível fazer a bem do desenvolvimento da terra. A vinda do padre Boaventura, veio demonstrar que quando há pessoas com capacidade de liderança e vontade de unir o povo, não existem dificuldades que não seja possível ultrapassar.

Uma das obras que ele entendeu como sendo a de maior interesse para o lugar, foi a construção de um cemitério, “não creio que alguma vez tivesse passado pela ideia das pessoas da terra tal coisa”. Até essa altura os mortos da aldeia iam a enterrar nas respetivas freguesias de Prazeres de Aljubarrota, ou Évora. Eram vários quilómetros que as pessoas tinham que percorrer para chegar até aos respetivos cemitérios.

O trajeto era feito sempre a pé a maioria do tempo o caixão era levado a pau e corda, ou seja, ao caixão eram fixadas cordas que depois eram atadas a paus que os homens, encarregados de o levar colocavam ao ombro, para que fosse mais fácil e, em algumas situações a única forma possível de o fazer. Naquele tempo, os caminhos, no inverno tornavam-se quase intransitáveis. Isto valia para as duas freguesias a que a nossa comunidade pertencia “e ainda pertence”. Foi uma alegria enorme para a população quando deixou de ser necessário levar os seus defuntos para tão longe, não só pelas dificuldades que isso acarretava, mas também e não menos importante, porque passaram a poder visitar as campas dos seus ente-queridos sempre que o desejassem, o que antes não era possível.

Nesta região não creio que fora da sede das freguesias existisse algum cemitério. Mas o senhor Padre Boaventura tornou isso possível. Foi também por ideia e vontade sua que foi construído um salão junto á capela, outra coisa impensável naquele tempo, mesmo nas sedes de freguesia eram poucas as que tinham tais condições.

O padre Boaventura soube ir ao encontro das pessoas. Desde os mais velhos aos mais novos, ele conseguiu a admiração de todos. Algumas vezes quando passava junto à escola dos Covões, a única que existia para acolher todas as crianças desta comunidade (Molianos de Évora e de Prazeres Aljubarrota, Covões e Lagoa do Cão), que eram muitas naquele tempo, ele parava a sua bicicleta motorizada e vinha até ao recreio da escola brincar connosco, ensinando-nos jogos para ocuparmos algum do nosso tempo.

Quanto às rivalidades que existiam, ele soube como reduzi-las e aproveitar o que havia de positivo. Se foi possível em cerca de três anos fazer tanta coisa, numa terra onde não havia dinheiro e, naquele tempo não se falava em empréstimos bancários; então o que ele fez e bem, pegou nas rivalidades existentes na comunidade e fê-las convergir na mesma direção. Assim, conseguiu que dentro das possibilidades e capacidades de cada grupo, era ver quem ficava mais bem visto, o mesmo é dizer quem oferecia mais nos vários cortejos que tiveram lugar por aquela altura, onde todos participavam, dos mais idosos até às crianças, nunca com a sensação de esforço, mas sim com gosto e a alegria estampada no rosto por colaborarem num projeto que só graças á vinda de um homem que estava muito à frente do seu tempo tinha sido possível.

Outros projetos faziam parte da sua agenda para esta comunidade o mais interessante era a elevação de Molianos a freguesia. Com a sua saída, deixou na mente das pessoas, a certeza que não só a freguesia, mas também outras obras teriam sido possíveis na terra.

As pessoas que trabalham para bem de outros sem esperar nada em troca nunca deviam ser esquecidas, e o padre Boaventura faz parte desse grupo restrito de pessoas. No início do ano de 1994, teve lugar na aldeia uma festa para assinalar a mudança para “novas” instalações do rancho folclórico dos Molianos a cuja direção eu presidia, uma das primeiras pessoas a ser convidada para o evento, por sugestão minha, logo aceite por todos, foi o padre Boaventura.

Num domingo á tarde fomos encontra-lo na casa de um irmão também padre ao tempo em Maceira Liz. Foi com um misto de alegria e surpresa que nos recebeu, aceitando logo o nosso convite. Conversamos durante algum tempo, soubemos do seu trajeto depois de deixar a freguesia de Prazeres de Aljubarrota. Esteve vários anos em Leiria, tendo passado por Angola e depois pelo Brasil. Durante a conversa que mantivemos, falámos da obra deixada na nossa aldeia, aproveitou para nos contar um episódio que aconteceu no primeiro funeral que fez numa aldeia próximo da sede da freguesia, depois de concluída a parte religiosa dentro de casa junto ao defunto, saiu para o pátio esperando como era normal que as pessoas saíssem com o caixão, como tal não acontecia entrou de novo na casa tentando saber o porquê da demora, foi então que soube que o homem era tão mau que nem para o cemitério o queriam levar, só três homens se dispunham a levá-lo mas como eram necessários quatro, foi ele que se prontificou a ajudar a levar o caixão até ao cemitério e assim se fez o funeral.

9/03/2013

António Eduardo Jerónimo Ferreira

Anúncios