Uma geração que atingiu a idade adulta sem ter sido criança(2)

Eram-mos empregados do estado, recebíamos à quinzena, mas apenas as horas que trabalhássemos. Tempo de serviço que mais tarde não contou para efeitos de reforma. No inverno, algumas vezes, depois de subirmos a serra e ter trabalhado uma ou duas horas tínhamos que regressar a casa porque a chuva e o vento a isso obrigavam.

O trabalho na floresta como então era designado, na primeira faze, dos Molianos até chegar ao fim durou cerca de três anos. Com o passar do tempo alguns foram deixando a nossa terra para trabalhar noutros sítios. Era duro o trabalho na serra para jovens daquelas idades, com a agravante da viagem até ao local ser feita a pé, para o fim chegava a demorar mais de uma hora para cada lado. O ordenado no fim da quinzena era sempre para entregar aos pais. Algumas vezes combinávamos quando recebermos, entre todos, vamos ver se conseguimos comprar uma bola, esse dia nunca chegou…

Ainda muito novos, quase todos passaram também pelas vindimas, naquela que na nossa aldeia chamavam a região saloia, que no caso se estendia apenas pelos concelhos do Cadaval, Bombarral e Alenquer. Mais tarde foram vendedores ambulantes de leite em Lisboa, tinham por essa altura aproximadamente 16 anos. As meninas, algumas foram também trabalhar para Lisboa, as que continuaram na nossa aldeia no tempo das vindimas iam para o Vale de Santarém. O trabalho remunerado por cá para os mais novos era pouco, a exceção era o tempo da apanha da azeitona.

Eram muitos os jovens na aldeia naquele tempo, mas a maioria estava quase sempre  fora, os poucos rapazes que não saiam  da terra para trabalhar, algumas vezes, queriam jogar a bola mas não conseguiam fazer duas equipas, a não ser com dois ou três de cada lado.

Com o passar do tempo as guerras coloniais cada vez mais “próximas”e sem fim à vista, para além duma infância de trabalho sem qualquer regalia, começava mais um pesadelo para os rapazes que não sabiam o que o futuro lhes reservava mas não deixava antever coisa boa. Para as raparigas o pesadelo não era menor, era um familiar um amigo ou o namorado que viam partir,  quando tal acontecia grande parte da sua já reduzida liberdade passava a ser ainda menos, não iam a um baile, festas da aldeia apenas às de cariz religioso e nem sempre…

Os rapazes da nossa aldeia do grupo que foram para escola naquele ano de 1957, chegou um dia em que fomos às sortes como então se dizia por cá. Tivemos todos a mesma sorte, aptos para todo o serviço militar. Não demorou muito tempo para que três fossem até à Guiné um para Angola e o outro para Timor. Com todas estas ocupações e muitas outras que aqui foram descritas, não tivemos mesmo tempo para ser crianças…

António Eduardo Jerónimo Ferreira