Guiné, Cart 3493 em Cobumba onde o improviso foi uma constante

 

Passados trinta e nove anos, dou comigo a “viajar”no espaço e no tempo onde vivi cerca de oito meses. 

sofáEsta foto é da L.D.G. que nos levou para Cobumba pelo rio cumbijã, eu vou do lado direito, sentado de costas para o rio agarrado a um cabo de aço que servia para evitar possíveis quedas à agua, sinalizado com a seta, não sabia que estava-mos a ser fotografados, creio que pelo condutor Cruz, íamos vários condutores naquele sítio, o semblante carregado de todos não deixava dúvidas, era grande a apreensão…

A descrição feita neste artigo, refere-se particularmente a um dos dois locais que a Cart 3493 ocupava em Cobumba, aqui estavam sediados, dois pelotões, quase toda a formação e o comando da companhia, mais alguns homens de armas pesadas que não fazendo parte da nossa companhia ´lá estavam connosco.

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A foto que vemos a seguir mostra-nos como eram os nossos chuveiros, nada maus atendendo à situação em que nos encontrava-mos, eram quatro barris em cima de um cajueiro que abastecia -mos mais de uma vez por dia, estes serviam o pessoal da ferrugem e outros com abrigos por perto, existiam vários espalhados no espaço por nós habitado

CHUVEIROS C0BUMBA

Junto ao tronco do cajueiro existia um abrigo que vemos coberto com capim para proteger da infiltração das águas, do lado direito existia uma tenda que servia de enfermaria, não só para nós mas também para a população local que o desejasse, os medicamentos disponíveis não eram muitos, mas para quem estava habituado a ter tão pouco, tudo que lhe pudesse ser dado já era bom…

Normalmente tomava-mos banho três vezes por dia, mas aconteceu um em que eu estava de serviço, de condutor, calhou-me a ir ao rio cumbijã buscar o nosso pessoal e o barco, tinham ido a Cufar como acontecia muitas vezes, como já era tarde tomei o banho da noite antes de ir para o rio com o pessoal, enquanto estivemos à espera no cais os fiat bombardeavam não muito longe de nós, entretanto foram embora, passados cerca de cinco minutos rebentou um violento ataque a Cobumba, nos primeiros instantes ficamos confusos, seria de novo os fiat, mas depressa se desfizeram as dúvidas era mesmo Cobumba a embrulhar, tivemos sorte, por pouco não nos apanharam no regresso, com a precisão com que colocaram as granadas junto à picada poderia ter sido muito grave…

Durante aproximadamente  meia hora que durou o bombardeamento deitamo – nos no lodo do rio a maré estava muito baixa, os rebentamentos iam acontecendo em direção ao local onde nos encontrava-mos, mas os  mais próximo de nós ficaram a cerca de oitenta metros, nesse dia tive de tomar banho mais uma vez, pois só os olhos não estavam cheios de lodo.

Apesar do muito fogo não fizeram grande estrago, houve uma vítima mortal entre a população e, dois feridos ligeiros dos nossos homens.

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bebé

Aqui vemos uma menina, pequenina, com a irmã ainda mais pequena  às costas caminhando pela tabanca onde podemos ver algumas das suas casas, todas debaixo de grandes mangueiros, certamente preciosos para ajudar a suportar os dias de enorme calor que se fazia sentir por aquelas paragens.

As crianças por ali não eram muitas, pois os adultos também não, uma situação que ainda hoje me dá que pensar é, nunca ter visto uma criança chorar, certamente sorte minha, pois as crianças choram em todo lado… mas quem estava habituado a ver crianças a chorar por tudo e por quase nada, tal situação mexia comigo.

Se por aqui naquele tempo, ainda que menos que agora, algumas crianças já choravam e faziam birras quando os pais não lhe davam certas coisas que eles viam e gostavam, os meninos das aldeias espalhadas um pouco por toda a Guiné, não só, não tinham acesso a essas coisas como eram para eles desconhecidas. Mas não raramente éramos confrontados com crianças que corriam pulavam brincavam parecendo ser meninos felizes… Uma autêntica lição que talvez devesse servir de reflexão nos tempos que correm, em que muitas pessoas tem quase tudo, mas mesmo assim não conseguem ser felizes.

A razão de eu ser tão sensível aos problemas das crianças da Guiné por onde passei,Ver aqui, talvez tivesse  a ver com o facto de ter deixado o meu filho com quinze horas de nascido, na maternidade com a mãe.

——————————————————————————————————————————————————————————————————————————————ovo

A cozinha da companhia, era apenas um espaço debaixo de uma árvore de grande porte, coberta com chapas de zinco para proteger da chuva, a maior parte do tempo em que estivemos naquele local era época das chuvas.

A poucos metros dali existia um poço que foi por nós recuperado, quando lá chegamos enchia-mos o copo de água mas não lhe conseguia-mos ver o fundo, era de uma cor esverdeado- escuro, depois de limpo ficou um pouco melhor, era o que havia, e ser dentro do arame junto aos nossos abrigos já foi ter muita sorte, quando o local de abastecimento de água ficava afastado por vezes era um dos grandes problemas para o nosso pessoal…

Como não havia refeitório éramos  nós que íamos buscar a comida, no inicio, tinha-mos uma tenda que servia de refeitório para os condutores e para mais alguns que tinham os abrigos próximo daquele local, mas com o passar do tempo e a situação a agravar-se a cada dia que passava, optamos por improvisar mesas junto à saída dos abrigos onde os seus moradores passaram a ter o seu”restaurante”, porque assim era mais seguro em caso de haver arraial… e havia com frequência.

Aconteceu um dia em que o Cruz a fazer um petisco para os condutores, fritar uma galinha, a única que conseguimos comprar durante o tempo em que lá estivemos, teve de interromper o seu trabalho por três vezes, naquela tarde os homens do P.A.I.G.C estavam mesmo com vontade de nos chatiar, mas ficou por isso mesmo…

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Durante seis meses não necessitei de barbeiro, aqui vinha da “cozinha”que ficava a cerca de cinquenta metros do nosso abrigo, tinha ido buscar o almoço, a lata  maior era a do segundo, a outra era a da sopa, um observador menos identificado com aquele tempo poderá pensar que eu ia levar comer aos animais, mas não, neste caso os animais era eu e o meu camarada Cruz.

Chouriço de pouca qualidade e salsichas com arroz (bianda) era dos pratos que mais vezes nos eram disponibilizados em Cobumba, a alimentação ou a falta dela, provocava quase tantos estragos como aqueles a que o inimigo nos sujeitava.

a caminho da...

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Quando estivemos em Mansambo, todas as semanas íamos a Bafatá buscar duas vacas “pequenas” que eram consumidas pelo pessoal da companhia. Em Cobumba durante os cerca de oito meses que a nossa companhia lá esteve, apenas vi esta que está a olhar para mim, talvez querendo-me dizer, intruso sai do meu campo

vaquinha

—————————————————————————————————————————————————————————————————————————-A seguir estou com a minha companheira de vinte seis meses e mais uns dias junto ao local onde todas as noites que estivemos em Cobumba fiz reforço, durante a noite disparava-mos muitos tiros mesmo sem inimigo à vista, certa noite um desses tiros cortou um fio condutor de energia que suportava a fraca iluminação junto ao arame, o eletricista Vieira é que ficou muito aborrecido teve de interromper o sono para reparar a avaria, eu não fiquei menos…

Chego a pensar se ainda lá estivesse hoje a disparar tiros provavelmente não voltava a conseguir cortar o fio.

g 3

A poucos dias de regressar a Bissau, estava a olhar para um dos muitos mangueiros que lá existiam, talvez a procurar afastar da mente pensamentos menos bons, e eles eram tantos,  faltava poucos dias para regressar a Bissau, mas o fim da comissão ainda vinha longe.

António EJ Ferreira

Olhar...