Quando o tudo não vale nada

Quantas vezes vemos alguém enquanto mais novos, e alguns mesmo já idosos, a trabalhar sem ter tempo para observar atentamente o mundo que os rodeia… Não ter tempo para a família. Não ter tempo para os amigos ou para aqueles que necessitam da sua ajuda. Não ter tempo para escutar, a maioria das vezes limita-se a ouvir… Não raramente, em vez de ver, apenas olha.
O Pior é que com tal comportamento pensa que está a fazer o melhor para si e para os seus e quando vê que afinal está errado é tarde demais! Mas mesmo assim há sempre um tempo em que é possível mudar, jamais chegará onde poderia ter chegado, mas entre o tudo e o nada há que aproveitar o que ainda for possível.
Por isso, mesmo que ainda possa andar depressa, procure não andar com pressa. Procure observar calmamente o ambiente que o rodeia e não apenas olhar. Escute, mesmo que lhe pareça não merecer a pena, porque merece sempre se mais não for permite-nos reconhecer melhor e valorizar aqueles que sabem o que dizem e que gostamos de ouvir, ainda que sejam muitas as vezes que já não temos oportunidade de lhes dizer como gostaríamos…
Ao longo da vida muitos de nós somos confrontados com situações assim em que chegamos à conclusão que o tudo pode não valer nada… Não raramente, é a partir daí que descobrimos o caminho que devíamos ter percorrido mas como o passado já não volta há que o arrumar o melhor possível e procurar um novo rumo. Parar isso nunca!
António E.J Ferreira

 

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As luzes que se viam da serra

Naquele dia, manhã cedo, o Pedro deixou a aldeia e guiou o rebanho até à serra, como fazia todos os dias, quando lá chegou, estava muito frio, o sol ainda se não via, olhou em direção à vila sede do concelho e, estranhamente viu muitas luzes, eram brancas, azuis, amarelas, verdes, um sem fim de cores. Depois de muito pensar o que seria que por lá estaria a acontecer, respirou fundo e disse para consigo. Com tantas luzes e de tantas cores, só pode ser feira!… E logo imaginou que não faltariam por lá os carrosséis, os carrinhos de choque, o circo, a barraca das farturas e tantas coisas bonitas, que raramente podia ver. Nesse mesmo instante decidiu… Na amanhã do dia seguinte depois de levar as ovelhas a pastar à serra, também ele havia de ir à feira. E assim fez, no dia seguinte, chegou a casa “arranjou-se” e pôs-se a caminho por veredas e atalhos depressa chegou à vila, as luzes cada vez pareciam mais, mas não encontrava o largo da feira,  continuou procurando, só que, depois da caminhada que fizera e de tanto procurar começava a sentir algum cansaço. Aquilo que imaginara ir ver não encontrava. Apenas via muitas pessoas numa correria louca, carregadas de sacos de plástico e de vários embrulhos, e a feira não encontrava.

Aproximou-se duma velhinha e perguntou: senhora pode informar-me onde fica o local da feira? A velhinha sorriu e disse—, olha menino, de facto parece uma feira mas não é! Começa hoje a época de natal aqui na vila e a Câmara Municipal mandou iluminar as ruas para ficarem mais bonitas e para que mais gente venha até cá, e assim, os comerciantes possam fazer mais negócio.

O Pedro agradeceu à velhinha a informação prestada, cansado, triste, e desiludido voltou à sua aldeia. Era tempo de natal, mas apesar de muito caminhar coisas que lhe fizessem lembrar essa época ele não encontrara. O presépio como sempre havia na sua aldeia ou a pequena árvore de natal não vira em nenhum lado. Desejava contar à mãe, viúva há já alguns anos a desilusão que tinha sido a sua ida à vila. Mas também não pôde, porque ela se encontrava doente, internada no hospital de uma cidade distante. No regresso a casa pensou… como é lindo o natal na minha aldeia! Onde o menino Jesus é o centro da festa, e as crianças, mesmo as que não recebem prendas, conseguem ser felizes.

António  EJ Ferreira

 


Molianos e a extração de pedra.

Nos Molianos, existem locais onde ainda hoje são visíveis vestígios de pedreiras de outro tempo de onde terá saído pedra para a construção do mosteiro de Alcobaça. Algumas pessoas atribuem o nome de Moleanos à extração de pedra que no passado daqui teria saído para fazer mós para os moinhos que existiam na região. Daí, escreverem Moleanos e, não Molianos.

Versão não corroborada pelas pessoas nascidas na aldeia nos fins do século dezanove, e foram muitas com quem ainda tive a oportunidade de conversar, todas disseram que sempre ouviram dizer aos seus antepassados que o nome da nossa aldeia se ficou a dever às primeiras pessoas que vieram morar para este local, que tinham no seu nome o apelido Molianos. Também nenhuma se lembrava de ver em atividade qualquer pedreira dessas cujos vestígios ainda hoje podem ser observados.

No início da década de sessenta do século passado teve início a exploração de pedreiras da nova geração que, com o passar do tempo, vieram a revolucionar a vida da aldeia e, direta ou indiretamente de toda a população. Uns, porque eles ou familiares passaram a ter trabalho próximo de casa, outros que tiveram oportunidade de vender terrenos por bom preço se não fosse a extração de pedra pouco valor tinham, graças ao aumento do poder de compra muitas outras atividades foram beneficiadas também. Assim como para muitos que de fora da terra para cá vieram trabalhar.

Severino

Hoje a pedra que sai dos molianos tornou-se conhecida não só em Portugal, como por muitos países de vários continentes. Mas, sem o primeiro passo nunca teria existido o segundo. E o primeiro foi dado pelo senhor Américo Ferreira Severino, aqui na foto, com abertura da pedreira da Cavadinha, assim como noutros locais. Mas foi na Cavadinha que tudo começou…

No início parecia um trabalho de algum aventureiro à deriva… E, de facto foi uma autêntica aventura, só possível a alguém que está muito à frente do tempo em que está a viver. Mas como acontece à maioria daqueles que possuem essas qualidades, o resultado do seu trabalho raramente lhe traz qualquer proveito, sendo mais tarde aproveitado por outros. O senhor Américo Ferreira Severino foi, e apesar de já não estar entre nós, continua a ser um desses exemplos.

A todas as ruas e outros espaços públicos da aldeia, nos últimos anos, foram atribuídos nomes, alguns com pouco significativos, quando existiram na nossa terra pessoas por aquilo que fizeram, para bem da comunidade, são simplesmente esquecidas, seria da mais elementar justiça que a uma rua ou obra nos Molianos fosse atribuído o nome do senhor Américo Ferreira Severino. Talvez assim, alguns que hoje se pavoneiam algures por ai, ficassem a saber que foi graças à iniciativa de alguém que hoje podem ter tal comportamento…

António EJ Ferreira

 


A condução e a pressa seria bom estarem sempre afastadas…

 

DSCF1790É lamentável, mas acontece. A velocidade a que maioria dos condutores circula na rua D. Maria Pia que atravessa a aldeia de Molianos, cerca de três quilómetros, está a ultrapassar os limites do aceitável.

Antes do último alcatroamento era pouca a sinalização existente, atualmente está devidamente sinalizada, mas de pouco vale se as regras de trânsito não forem respeitadas, não raramente se encontram crianças a andar de bicicleta assim como muitas pessoas caminhando ou atravessando a rua, alguns nem se apercebem do perigo que correm, se tais comportamentos não forem alterados, é caso para perguntar! Quando acontecerá a tragédia.

Como se não bastasse a velocidade excessiva com que a maioria circula, junta-se ainda a irresponsabilidade de alguns que cruzando-se com alguém com querem conversar não raramente mudam de faixa e param fora de mão só porque a pessoa com quem querem falar vem ou está do lado contrário da rua… isto para não falar da forma como muitos estacionam o carro, para caminhar menos dois ou três metros a pé deixam-no fora de mão, não importa onde, algumas vezes dificultando a passagem de outros veículos.

Por favor senhores condutores, se gostam de conduzir a alta velocidade existem locais apropriados para o fazer, mas esses não serão nunca aqueles onde se coloca em causa a integridade física dos outros como está a acontecer na nossa aldeia.

Aos condutores mais novos será bom lembrar que tem muito tempo para ter aborrecimentos, para que tal não aconteça, um pouco mais de calma é uma boa ajuda… A alguns dos mais idosos recordar aquilo que há muito eles sabem, na condução a pressa nunca foi boa companheira.

Por último, enaltecer o comportamento daqueles que respeitam as mais elementares normas de boa condução dentro das localidades, entre outras, respeitar a velocidade a que a lei obriga e a sinalização existente. Infelizmente são a minoria…

António EJ Ferreira.

 


Uma geração que atingiu a idade adulta sem ter sido criança(2)

Eram-mos empregados do estado, recebíamos à quinzena, mas apenas as horas que trabalhássemos. Tempo de serviço que mais tarde não contou para efeitos de reforma. No inverno, algumas vezes, depois de subirmos a serra e ter trabalhado uma ou duas horas tínhamos que regressar a casa porque a chuva e o vento a isso obrigavam.

O trabalho na floresta como então era designado, na primeira faze, dos Molianos até chegar ao fim durou cerca de três anos. Com o passar do tempo alguns foram deixando a nossa terra para trabalhar noutros sítios. Era duro o trabalho na serra para jovens daquelas idades, com a agravante da viagem até ao local ser feita a pé, para o fim chegava a demorar mais de uma hora para cada lado. O ordenado no fim da quinzena era sempre para entregar aos pais. Algumas vezes combinávamos quando recebermos, entre todos, vamos ver se conseguimos comprar uma bola, esse dia nunca chegou…

Ainda muito novos, quase todos passaram também pelas vindimas, naquela que na nossa aldeia chamavam a região saloia, que no caso se estendia apenas pelos concelhos do Cadaval, Bombarral e Alenquer. Mais tarde foram vendedores ambulantes de leite em Lisboa, tinham por essa altura aproximadamente 16 anos. As meninas, algumas foram também trabalhar para Lisboa, as que continuaram na nossa aldeia no tempo das vindimas iam para o Vale de Santarém. O trabalho remunerado por cá para os mais novos era pouco, a exceção era o tempo da apanha da azeitona.

Eram muitos os jovens na aldeia naquele tempo, mas a maioria estava quase sempre  fora, os poucos rapazes que não saiam  da terra para trabalhar, algumas vezes, queriam jogar a bola mas não conseguiam fazer duas equipas, a não ser com dois ou três de cada lado.

Com o passar do tempo as guerras coloniais cada vez mais “próximas”e sem fim à vista, para além duma infância de trabalho sem qualquer regalia, começava mais um pesadelo para os rapazes que não sabiam o que o futuro lhes reservava mas não deixava antever coisa boa. Para as raparigas o pesadelo não era menor, era um familiar um amigo ou o namorado que viam partir,  quando tal acontecia grande parte da sua já reduzida liberdade passava a ser ainda menos, não iam a um baile, festas da aldeia apenas às de cariz religioso e nem sempre…

Os rapazes da nossa aldeia do grupo que foram para escola naquele ano de 1957, chegou um dia em que fomos às sortes como então se dizia por cá. Tivemos todos a mesma sorte, aptos para todo o serviço militar. Não demorou muito tempo para que três fossem até à Guiné um para Angola e o outro para Timor. Com todas estas ocupações e muitas outras que aqui foram descritas, não tivemos mesmo tempo para ser crianças…

António Eduardo Jerónimo Ferreira


Uma geração que atingiu à idade adulta sem ter sido criança (1)

No dia sete de outubro de mil novecentos e cinquenta e sete, era segunda- feira, davam entrada pela primeira vez no posto escolar misto de Covões, aldeia do concelho Alcobaça, para frequentar o ensino primário um grupo de quinze meninos e meninas que chegaram a adultos “sem ter sido crianças.

Durante três anos andamos na mesma escola, nem sempre juntos, dependia da evolução de cada um, alguns passavam de classe, como então se dizia, outros iam ficando na mesma. Passado esse período de tempo houve uma separação que teve a ver com a entrada em atividade da escola da Pedreira de Molianos ou Termo de Évora, como também era conhecida a parte mais a sul da aldeia. Para lá, foram todos os que pertenciam à freguesia de Évora assim como os que moravam na cavadinha e no lameirão, que pertenciam à freguesia de Prazeres de Aljubarrota mas também foram para a nova escola. Alguns com aquela mudança deixaram de percorrer a distância de seis quilómetros que todos dias faziam a pé, alguns iam descalços…

Com o passar do tempo já ninguém fala na Pedreira ou Termo de Évora, a não ser alguns dos mais idosos que por vezes ainda falam em tal designação.

Depois do tempo de escola, para alguns quatro anos, para outros chegava a ser até esgotar o tempo obrigatório… No ano de 1963, a maioria voltou a juntar-se, agora não na escola, mas a cortar mato e cavar na serra dos candeeiros. Na sementeira de pinhal que então tinha lugar, só não passaram por lá aqueles que por essa altura já tinham saído para outras paragens, normalmente para Lisboa, também  para trabalhar…

Quase não podiam com a enxada ou com o sachão que também utilizavam, mas há muito sabiam o que era fazer pequenos trabalhos no campo. A vontade de trabalhar para ajudar os pais, e a esperança que no fim da quinzena pudessem receber alguns escudos, poucos, o que nem sempre acontecia, levava a ultrapassar algumas dessas dificuldades. Era uma época difícil em que as alternativas eram poucas. Alguns jovens tinham qualidades para poderem continuar a estudar, mas isso só por si não chegava…

Apesar da pouca idade, o serviço era o mesmo dos mais velhos só o ordenado era diferente. Alguns dos rapazes que foram uns dias mais cedo quando os trabalhos começaram a aproximar-se da nossa aldeia, do lado do sul, ficaram a ganhar o ordenado dos homens, trinta e cinco escudos, passado pouco tempo, talvez devido ao excesso de oferta os que foram entrando passaram a ganhar apenas vinte cinco. As meninas ganhavam o mesmo ordenado que as mulheres, vinte escudos.

Continua


Uma vez mais as coletividades

2014-01-15 escuro 001Com a chegada do tempo mais adequado para organizar festas e outros eventos entram em ação as direções de várias coletividades “alcunhadas” de cultura desporto e recreio, tendo em vista angariar fundos, uns para acrescentar obras, outros já não fazem obras novas e tem grande dificuldade em manter em bom estado de conservação as que existem.

Tudo estaria correto se algumas das atividades que as coletividaes ostentam no nome,  estivessem em funcionamento, mas infelizmente são poucas onde tal acontece. Para agravar ainda mais a situação, organizam festas onde os comes e bebes são a atividade principal do evento.

Outros, tentam angariar fundos organizando bailes, onde aquele, ou aqueles que beberem mais terão um prémio… em tempos que já lá vão talvez se aceitasse tal funcionamento. Existem situações em que o passado deve de servir como exemplo, é verdade que sim, mas adaptado às novas exigências, e essas são muitas. Mas certamente, não são levar as pessoas a comer e beber em excesso… Menos ainda, as coletividades que todos dizem estar ao serviço do povo…

Para agravar tal situação, os políticos dão a sua ajuda subsidiando as coletividades sem nada exigirem em troca. A não ser que votem neles quando acontecerem atos eleitorais.

Seria bom que os responsáveis por coletividades que estão efetivamente ao serviço do povo, pensando num futuro melhor fizessem valer os seus direitos… Todos teriamos a ganhar.

António EJ Ferreira.