Jovens da aldeia de Molianos na guerra da Guiné

Durante os últimos treze anos de domínio colonial português, cerca de quarenta jovens naturais da aldeia de Molianos foram mobilizados para a guerra que se desenrolava nas colónias portuguesas, Guiné, Angola e Moçambique.  Três, com um pouco mais de “sorte” foram mobilizados para Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor.

totalEste trabalho  procura dar a conhecer, ainda que resumidamente, o que foi a passagem pela Guiné dos catorze jovens de então, que, naquela que poderia ter sido a melhor fase da sua vida,  tiveram de deixar tudo e  partir para um local onde a única certeza era a de ir para um cenário de guerra.

Todos caminhamos por aquelas picadas de terra vermelha, muitos rios,  bolanhas, matas que nos tempos de hoje certamente são lindas de ver, mas naquele tempo, para quem tinha de as percorrer debaixo de um sol tórrido ou de chuvas torrenciais, correndo o risco de pisar uma mina, ser atravessado por uma bala, ou crivado de estilhaços, as coisas eram bem diferentes.

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gustavoO José Gustavo da Silva assentou praça em julho de mil novecentos e sessenta e três, foi o primeiro  militar da nossa aldeia a ser mobilizado para a Guiné, foi com o posto de soldado e especialidade de armas pesadas. Na foto podemos ver a sua companheira inseparável nos momentos de maior incerteza, a bazuca. Embarcou no navio Quanza no dia oito de janeiro de 1964. Pertenceu à ccaç 618, que esteve em S. Domingos, Varela e Binar. Tiveram seis baixas na companhia, duas por acidente, afogamento no rio… e quatro em combate, regressou à metrópole no navio Uíge a dois de fevereiro de 1966.

 

geirinhasManuel da Silva Ferreira, foi mobilizado com oposto de soldado e especialidade de corneteiro, pertenceu à companhia de caçadores 1426, que esteve em Geba, Camacudo, Banjara e Catacunda. Embarcou com destino à Guiné em dezoito de agosto de 1965 chegando seis dias depois a Bissau.

Na foto está junto a uns bidons, que depois de vazios de combustível, não raramente, eram cheios de terra e utilizados em abrigos para proteção de fogo inimigo.

No regresso à metrópole embarcou a três de maio de mil novecentos e sessenta e sete chegou no dia nove a Lisboa.(*)

 

 

silvaJosé da Silva assentou praça a vinte cinco de outubro de mil novecentos e sessenta e cinco.

Embarcou para a Guiné a vinte de abril de mil novecentos e sessenta e seis, com o posto de soldado pertenceu à companhia de caçadores 1549, que esteve em Tite, Fulacunda e Quinhamel.

Na foto vem-se alguns troncos que podem ser apenas árvores derrubadas, ou,a cobertura de  algum abrigo subterrâneo.

Embarcou de regresso à metrópole a vinte seis de dezembro de mil novecentos e sessenta e sete.(*)

 

PeraltaAlberto Pedro Ferreira Peralta, 1º cabo com a especialidade de atirador, embarcou para a Guiné no navio Uíge a 14 de julho de 1967

Pertenceu à companhia independente 1749, que esteve em Mansoa e Mansabá. Durante alguns meses desempenhou as funções de cabo de rancho.

O acontecimento que mais o marcou durante a comissão, foi quando sofreram uma emboscada em que as nossas tropas sofreram duas baixas. A companhia teve oito todas em combate.

Regressou à metrópole no navio Niassa a 13 de junho de 1969.

 

AtalivioAtalívio Alexandre Ferreira,  1º cabo foi mobilizado com a especialidade de cozinheiro,  da nossa aldeia para aquela província foi o único, embarcou para a  Guiné em Lisboa no dia vinte e oito de Outubro de mil novecentos e sessenta e sete no navio Uíge, chegou a Bissau a dois de novembro.

Integrou a companhia 1787 que esteve em Empada.

No regresso à metrópole, embarcou a vinte e três de agosto de mil novecentos e sessenta e nove, desembarcou em Lisboa a vinte e oito do mesmo mês.

 

 

 

carreiraJosé Fernando Carreira Coelho assentou praça no mês de novembro de mil novecentos e sessenta e sete,  soldado com a especialidade de condutor auto, embarcou para a Guiné no navio Úige no dia onze de agosto de mil novecentos e sessenta e oito

Pertenceu à cart 2410, “os dráculas” que esteve em Bissau, Cacheu, Bachil, Gadamael Porto, Ganturé e Guileje. Tiveram três baixas na companhia, uma das muitas ocorrências que apesar do tempo que passou  não mais esqueceu, foi a mina que os picadores levantaram na picada à frente da viatura que conduzia. Regressou à metrópole no navio Ana Mafalda a dezoito de abril de mil novecentos e setenta.  Viajem atribulada na maior parte do trajeto, só porque era  o regresso a casa  a amenizou um pouco, mas ainda recorda o desconforto porque passaram.

 

escriturarioAntónio Reis Pavoeiro assentou praça em julho de mil novecentos e sessenta e nove.

Foi mobilizado em rendição individual para a Guiné com o posto de 1º Cabo e especialidade de escriturário, viajou no navio Alfredo da Silva um dos vários que fazia transporte de pessoal e mercadorias entre a metrópole e aquela província.

Passou toda a comissão em Bolama, local, em que durante o tempo que lá esteve foi flagelado apenas duas vezes, à distância, com foguetões sem consequências.

Regressou à metrópole em avião no dia três de agosto de mil novecentos e setenta e dois.

 

faustJosé Fernando Pimenta Faustino, assentou praça em em agosto, soldado condutor auto embarcou para a Guiné em doze de março de mil novecentos e setenta e um no navio Uíge foi em rendição individual.

Esteve seis meses em Teixeira Pinto, CAOP 1, o resto da comissão foi passado em Bissau. Veio uma vez de férias à metrópole.

Regressou por via aérea a oito de fevereiro de mil novecentos e setenta e três. Ainda tem em seu poder os recibos do ordenado que recebia, mil cento e cinquenta e sete escudos, dos quais, cento e cinquenta correspondiam ao chamado prémio de viatura.

 

Francisco Pereira Louro, embarcou para a província da Guiné em doze de março de mil novecentos e setenta e um, foi em rendição individual, esteve no Pelundo, única informação disponível. (*)

 

BernaJosé dos Reis Pavoeiro foi mobilizado para a Guiné com a especialidade de corneteiro, esteve em Teixeira Pinto para onde embarcou a dezasseis de setembro de mil novecentos e setenta e um.

Foi juntar-se ao irmão, António, que já lá se encontrava há cerca de treze meses.

Durante o tempo que durou a guerra colonial nas várias frentes, da nossa aldeia, foram os únicos irmãos a estarem ao mesmo tempo e na mesma província, um em Teixeira Pinto o outro em Bolama, mas poucas vezes se encontraram.

 

António Ferreira da Silva Inácio, pertenceu à polícia militar, o único da nossa aldeia que passou todo o tempo de comissão em Bissau.

canalhaFoto tirada na esplanada do café Bento, local de encontro não só para quem prestava serviço na cidade, mas  também para  muitos que pelas mais variadas razões passavam por Bissau. Os três que estão trajados à civil não eram da nossa aldeia, com o posto de primeiro sargento enfermeiro prestavam serviço no hospital militar de Bissau. O que está com o copo na mão era nosso vizinho, de Alcobaça, primeiro Canha. Dos que estávamos com farda militar, o do centro era eu Jerónimo a primeira vez que vim de férias, o que está sinalizado com a seta era o Inácio, e o último da direita era o Faustino. Era cerca de meia noite quando a foto foi tirada, estávamos todos muito animados…

 

mamaduAntónio Eduardo Jerónimo Ferreira assentou praça no dia vinte cinco de janeiro de mil novecentos e setenta e um.

1º Cabo condutor auto viajou em avião rumo à Guiné na madrugada do dia vinte e quatro de janeiro de mil novecentos e setenta e dois, com escala em Cabo Verde, chegou ao fim do dia ao destino.Esteve cerca de um mês em Bissau antes de chegar à companhia, a Cart 3493, depois de treze meses em Mansambo, breve passagem por Fá Mandinga, Cobumba Ver aqui  e Bissau.Veio de férias à metrópole duas vezes

A companhia teve três baixas, duas vítimas de explosão de uma mina que rebentou na arrecadação para onde tinha sido levada depois de detetada e levantada na picada (eu estava de serviço de condutor nesse dia …) e uma por acidente com uma viatura já em Bissau, vários feridos graves todos em consequência do rebentamento de engenhos explosivos.

A companhia durante a comissão teve cinco viaturas destruídas por minas anti- carro, das quais quatro em Cobumba.Regressou à metrópole por via aérea no dia dois de abril de mil novecentos e setenta e quatro.

cafaloJosé Bértolo Coelho assentou praça no mês de maio de mil novecentos e setenta e três.

1º Cabo, apontador de bazuca, viajou para a Guiné em avião no dia vinte e três de Setembro de mil novecentos e setenta e três.

Pertenceu à companhia independente 4544, que esteve no Cumeré e Cafal Balanta. Foram muitos os momentos difíceis porque passou, mas aquele que recorda como tendo sido o pior, aconteceu no dia trinta de novembro de mil novecentos e setenta e três, o primeiro ataque ao arame que durou cerca de duas horas, ainda na companhia dos “velhinhos”.

A ccaç 4544 teve cerca de seis dezenas de feridos, alguns graves, todos em consequência do rebentamento de minas, desses, vários já depois da revolução de abril. Regressou à metrópole de avião no dia oito de setembro de mil novecentos e setenta e quatro.

 

lesboa 1Carlos Alberto Ferreira Pavoeiro, dos que passamos pela Guiné foi o único da nossa aldeia que não prestou serviço no exército, assentou praça no quartel da marinha em Vila Franca de Xira, foi mobilizado para a Guiné com o posto de grumete eletricista, passou todo o tempo de comissão integrado na guarnição do NRP Sagitário, onde era conhecido por, o Lisboa, nome da cidade para onde ainda criança foi viver com os pais. Esteve na guiné nos anos de mil novecentos e sessenta e oito e sessenta e nove.

Navio patrulha Sagitário

patrulha

Este trabalho foi elaborado, graças à colaboração prestada pelos Ex: militares da nossa aldeia que passaram pela então província portuguesa da Guiné a quem agradeço. Um obrigado muito especial aos familiares dos que já não estão connosco, pois só assim foi possível que informação referente a todo o grupo ficasse para memória futura.

Foram anos muito difíceis, não só para os que tivemos de ir para a guerra, mas também para familiares, vizinhos e amigos. Os anos iam passando e, mesmo aqueles que eram ainda crianças quando a guerra começou, quase todos lá foram parar.

Apesar das dificuldades porque passámos, tendo em conta os perigos que nos acompanhavam a cada momento, podemos dizer que tivemos alguma “sorte,” regressámos todos.

Mas, a pátria (naquele tempo) não estava preparada para receber aqueles que tinham sido forçados a ir para a guerra. Quando regressaram queriam trabalhar e estar juntos dos seus, mas metade dos que vieram, passado pouco tempo, tiveram que emigrar à procura de uma vida diferente Ver aqui, que lhe permitisse encarar o futuro para si e para os seus, com mais esperança.

(*) já falecidos

António Eduardo Jerónimo Ferreira. molianos.wordpresse.com

 

 

 

 

 

 

 

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