À conversa com três senhoras

Quando somos novos, salvo raras exceções todos ouvimos bem, só que,  muitas  vezes e por razões várias, não escutamos. Mais tarde,esta atitude contribui em larga medida, para que sejamos confrontados com situações, que em novos, não imaginaríamos ter de enfrentar. Assim sendo, seria bom que os mais jovens fizessem um esforçozinho e, procurassem escutar atentamente aquilo que os mais idosos têm para lhes dizer, isso não significa  fazer da mesma forma o que eles fizeram, os tempos são outros, mas sim, para conhecer como foi vivida parte da sua vida. É fundamental sabermos de onde vimos… isso muitas vezes ajuda-nos a ganhar coragem para enfrentar situações menos boas que ao longo da vida nos vão acontecendo. É  bom ter sempre presente, que mesmo com os conhecimentos que todos agora adquirem na escola, há algo que só com o tempo se consegue, a experiência.

DSCF1118As três senhoras que  vemos na foto, e com quem tive a felicidade de poder conversar, também  já foram jovens… a Maria Rosa que está de chapéu, oitenta e sete anos de idade, ao centro a Maria Angélica de Sousa, com oitenta e cinco, ao seu lado esquerdo a Maria Silvestre da Silva com noventa e um anos, todas falam do seu passado já distante,  como se tivesse acontecido ontem.

Quando crianças, nenhuma frequentou a escola, segundo os costumes da época, as meninas não necessitavam de ir à escola, isso era para os rapazes, mas poucos eram também os que a frequentavam com aproveitamento. Outra situação comum às três, foi só terem usado sapatos quando já tinham nove ou dez anos de idade e, também elas, como quase todas as meninas e meninos na nossa aldeia, o tempo que deveria ser para andar  na escola, entre outros trabalhos era passado a guardar o gado, as cabras e as ovelhas.

Também as três trabalharam no campo, não só nos Molianos onde naquela altura ganhavam dois escudos e cinquenta centavos por dia, quando havia trabalho, mas também fora da terra, nas quintas de Alcobaça,  nas vindimas na Quinta das Varandas (região do Cartaxo), e nos campos da periferia da cidade de Lisboa, onde o ordenado era melhor, ganhavam sete ou oito escudos por dia.

 Nesta foto  está a Maria Rosa, regressava a casa com o carro de mão (que a objectiva do azarado ” fotografo” não conseguiu captar), tinha ido ao contentor levar cartão para ser reciclado, bom exemplo para os mais novos, com os seus oitenta e sete anos faz aquilo que alguns jovens não fazem a bem do ambiente, para que no futuro ainda seja possível viver com alguma qualidade.DSCF1116

Outra situação comum, foi acompanhar familiares quando estes  iam para as vindimas, uns para a região do Cadaval e outros para a zona do Bombarral. O acompanhamento por elas feito aos familiares, tinha por objetivo ajudar a transportar as coisas que eles levavam, não eram muitas, alguns géneros alimentares e alguma muda de roupa, para comerem e usarem respetivamente durante a campanha das vindimas, mas a distância era grande para quem como eles fazia a viajem a pé. O acompanhamento era feito até ao Cercal, já no Concelho do Cadaval. Ao chegarem aí, elas voltavam para casa com os burros que serviram para transportar as cargas e, serem o transporte delas no regresso a casa. Para eles o resto da viagem, até ao local de trabalho, mais alguns quilómetros,  continuavam a pé, mas agora caminhavam carregando com os seus pertences. A distância entre a nossa terra e o Cercal era de aproximadamente quarenta quilómetros.

Algumas das maiores dificuldades  por que elas passaram, para além do muito trabalho com pouca recompensa, falam da falta de água que se fazia sentir nos Molianos, agravada em anos que a chuva teimava em não cair e, todos os locais que armazenavam o precioso liquido secavam. Por volta do ano quarenta do século passado, foi tal a seca que a Câmara Municipal de Alcobaça disponibilizou uma viatura durante algum tempo para o transporte de água, que depois era distribuída pela população, ainda que, em quantidade reduzida para as necessidades. Outra situação difícil porque muitas mulheres passavam, tinha a ver com os partos difíceis que não raramente aconteciam, quando as parteiras da aldeia não conseguiam resolver, tinham que mandar vir o médico, vinha de Turquel o Dr. Guerra, no início também ele se deslocava a pé, até à nossa terra. Para além do risco que as parturientes e bebé corriam, na maioria dos casos, o casal não tinha dinheiro que chegasse para pagar ao médico, tinham que recorrer a ajuda de vizinhos o que não era nada fácil, pois a esmagadora maioria mesmo que quisesse ajudar, não podia…

Apesar de muito tempo já ter passado, ainda não esqueceram as dificuldades acrescidas porque passaram no tempo da segunda grande guerra, em que a venda de todos os bens alimentares obedecia a racionamento.

Aos doze ou treze anos, todas já tinham saído da terra para trabalhar, mas só quando já tinham mais de vinte foram a primeira vez  à praia da Nazaré. Algumas vezes ouvimos falar nos bailes de antigamente, “ou balhos” como no tempo delas diziam, mas também aí as coisas não eram fáceis, havia muitas  raparigas na aldeia, mas poucas vezes eram autorizadas pelos pais a ir, a não ser em situações especiais, nunca se encontravam no baile mais de quatro ou cinco raparigas, razão pela qual, os rapazes só de duas ou de três em três modas eram autorizados a dançar.

Durante o tempo que estive à conversa com elas, veio-me ao pensamento a frase( cujo autor desconheço) que diz, que só começamos a amadurecer quando rimos  daquilo que já nos fez chorar. Por várias vezes elas riam quando recordavam acontecimentos, que à data seriam arrepiantes, como, a de algumas meninas que deixavam cair o cesto que levavam cheio de uvas à cabeça, porque o peso era demasiado para a sua idade, assim como muitas outras situações Ver aqui que elas recordaram.

Este texto relata apenas uma pequena parte da agradável conversa que tive com a Maria Rita, a Maria Branca e a Maria Rosa, estes os nomes pelos quais são mais conhecidas na aldeia.  Às três, os meus agradecimentos pela oportunidade que me deram de viajar no tempo, e ficar a conhecer um pouquinho melhor como era a vida das pessoas da minha terra.

António EJ Ferreira

Anúncios