As tabernas nos Molianos em meados do século passado

Em meados do século passado, eram as tabernas, os locais onde os homens se juntavam ao domingo, ou quando o trabalho era pouco, ou ainda nos dias de inverno quando não podiam trabalhar no campo. Onde para além de beberem uns copitos do tinto, do branco, o pirolito, o bagaço ou  a genebra,  (para beberem o vinho por vezes nem necessitavam de copo, bebiam a olho), era também o local onde se vendia: o açúcar, o café (para fazer na cafeteira), a massa, o arroz, o petróleo ou o sebo para as botas, entre muitas outras coisas, eram uma espécie de “shopping” da época nos Molianos, como em quase todas as aldeias!

Naquele tempo as senhoras não frequentavam as tabernas, a não ser, para fazer as compras de que necessitavam, ou as que podiam … diziam os homens que as taberna não eram para as mulheres. Mas não se pense que algumas sem estarem na taberna, de vez em quando não apanhavam também a sua piela, de tal tamanho, que as fazia ziguezaguear não conseguindo passar despercebidas junto das pessoas com quem se cruzavam.

Eram muitas as tabernas naquele tempo, impensável nos dias de hoje, mas era mesmo assim, chegaram a estar em atividade ao mesmo tempo nove na aldeia. Por aquela altura não existiam coletividades ou outros espaços públicos a não ser as tabernas.  As pessoas não saiam da terra, não havia transportes particulares a não ser a bicicleta, mas havia poucas, (os dedos de uma mão chegavam para as contar e ainda sobravam dedos…), ou então os burros.

À segunda feira havia transportes públicos mas apenas para Alcobaça, era dia de mercado onde as pessoas iam vender algumas coisa que tinham, para poder comprar outras que necessitavam, algumas o peixe e pouco mais. Mas mesmo assim eram muitas as que iam e vinham a pé  ou, utilizavam os jumentos para poupar o dinheiro do transporte. Razão pela qual as tabernas eram frequentadas por muitas pessoas neste caso só homens, a não ser no tempo em que quase todos saiam da terra para trabalhar para outros sítios e, os mais frequentes era no tempo das vindimas para a região saloia, outras vezes para os campos na periferia de Lisboa e, alguns para vender leite na cidade. Os fregueses das tabernas por essa altura eram poucos.

Quando a maioria regressava à terra as pessoas eram em grande numero, aos domingos à tarde enchiam as tabernas, onde para além de muita conversa por vezes surgiam os poetas populares  e cantava-se ao desafio o que era sempre do agrado de todos, mas quando era já o álcool quem mais ordenava, por dá cá aquela palha aconteciam grandes senas de pancadaria, nada que passados alguns dias os contendores, por iniciativa própria ou com a ajuda de alguém não resolvessem fazendo as pazes, chegando a acontecer alguns ficarem mesmo amigos.

As tabernas para além do já referido, naquele tempo desempenhavam também uma “função social” não davam nada a ninguém, mas tornavam possível a algumas pessoas levar para casa alguns bens alimentares essenciais para o dia a-dia da família, quase sempre numerosa, levavam fiado com a promessa de vir pagar assim que tivessem dinheiro. Se assim não fosse, não podiam comprar e as dificuldades para sustentar a família seriam ainda maiores.

António Ej Ferreira

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