Coletividades e a confusão que reina por aí

Com o fim das guerras coloniais, a instauração do regime democrático, e a melhoria das condições sociais e económicas das pessoas. Bastava, aparecer alguém com capacidade de liderança e vontade de fazer coisas… para que quase todos o seguissem. E foi assim, que apareceram e se desenvolveram muitas das Coletividades, em vilas e aldeias um pouco por todo lado, preenchendo em parte, o vazio que se começava a fazer sentir devido à falta de espaços, para que se pudessem realizar determinadas atividades, que em consequência da nova realidade começavam agora a surgir, sobretudo, de âmbito social.

Saindo do quase nada, tudo pensou em grande… mas ao mesmo tempo, quase ninguém se lembrou de pensar na sustentabilidade das mesmas em termos de vida própria, há época, era aceitável que assim fosse, atendendo às grandes e rápidas transformações da sociedade que aconteceram por essa altura. Enquanto houve casamentos, batizados, bailaricos, festas de aniversário e outras, “assim como dificuldade na mobilidade das pessoas”, a ausência de vida própria das coletividades ia sendo de algum modo compensada por esses eventos. Mas essa onda passou. E, há já muito tempo, que é por demais evidente a necessidade de adaptação das mesmas à nova realidade com que somos confrontados. Dando-lhe uma vida nova, e assim dar seguimento ao trabalho difícil (atendendo ao tempo em que aconteceu), feito pelos seus fundadores, com o apoio incondicional das populações.

Alguns apercebendo-se disso, tem clamado no deserto, outros, remeteram-se ao silêncio, mas ambas as tendências há muito chegaram à conclusão, que as atividades recreativas, o desporto, a cultura, e agora mais do que nunca a componente de solidariedade social, não podem estar apenas no nome das instituições, ou nos estatutos, das chamadas Coletividades…

Pensam alguns, (não quero acreditar que seja a maioria), que basta ter um bar em funcionamento, e logo, é obrigação de todos colaborarem com quem está à frente dessas instituições. Outros continuam a pensar que as autarquias têm de continuar a dar o seu apoio. E alguns políticos, como passam grande parte do tempo do seu mandato a pensar nos votos das próximas eleições, vão-lhes fazendo a vontade, embora, sabendo, que não é esse o interesse das pessoas das zonas onde as mesmas estão inseridas.

Começa a ser tempo de dizer basta! Os apoios sejam eles institucionais ou não, devem ter em conta os fins a que se destinam, (ou deviam destinar) e não, à satisfação e capricho de alguns, que assumem determinadas lideranças, não raramente, mobilizando à sua volta pessoas cheias de boa vontade, mas com pouca visão de futuro no que às coletividades diz respeito. Por vezes, pensando ainda em projetos faraónicos que não tem nada a ver com a realidade.

Que se apoiem as coletividades que desenvolvem um trabalho válido nas zonas onde estão inseridas, porque essas merecem tudo, e o futuro se encarregará de o provar, e não como muitas vezes acontece, em que a distribuição de apoios é feita por igual, a todos. Bastando para tal estar registada com o nome pomposo de, Coletividade de Cultura Desporto e Atividades Recreativas, quando na verdade, em grande parte nada disso lá existe. Talvez seja tempo de alertar as pessoas possuídas de grande generosidade, que em certas circunstancias com que somos confrontados na vida, a melhor ajuda que se pode dar, é simplesmente, não ajudar…

É altura de políticos e outros líderes a nível local, tomarem consciência de que pouco valem as grandes obras, se estas não estiverem ao serviço do povo naquilo que é mais elementar. Nos conturbados momentos porque estamos a passar, elas deveriam contribuir de forma salutar, para que os jovens pudessem ter uma vida mais equilibrada, promovendo a sua ocupação nos tempos livres, sempre que possível no sítio onde vivem, porque se assim fizerem, certamente que o futuro será bem melhor para todos. E o mesmo deveria acontecer com os mais idosos, para que depois de uma vida de trabalho, não venham muitas vezes a sofrer em silêncio, por constatarem, que são considerados como uma mercadoria em fim de prazo, mas mais grave ainda, aos olhos de alguns, pouco mais são de que lixo. Triste realidade, mas é a que temos…

Há um alerta que nunca é demais lembrar aos menos velhos, é que o tempo passa depressa, e a continuarmos assim, também eles mais cedo que a maioria imagina, irão lamentar não terem olhado com mais atenção, durante o percurso que é a caminhada da vida.

Quero deixar aqui o meu reconhecimento a quantos, mulheres e homens de todas as idades e alguns jovens então muito novos, que trabalharam afincadamente sem pensar em agradecimentos ou outras benesses para si. Mas para que a sua terra se tornasse um espaço onde fosse mais fácil viver. Trabalho esse, que nem sempre tem tido a melhor continuidade. Muitos já não fazem parte do número dos vivos. Espero, que os ventos da história um dia soprem de feição, e não os deixem cair no esquecimento.

Opiniões a respeito das Coletividades!… Existem muitas. Esta é a minha!

António EJ Ferreira