A minha ida ao Xime

A minha ida ao Xime

Estava a minha companhia há pouco tempo em Mansambo, a Cart 3493, quando foi chamada a participar numa operação que teve lugar na zona do Xime, creio que com dois grupos de combate, calhou-me a mim ser um dos condutores que conduziu uma das viaturas que transportou o pessoal. Nesse dia, era já tarde quando lá chegamos, ficamos junto às instalações do Xime o regresso foi ao fim da tarde dia seguinte, durante a noite eu dormi ”no hotel estrela” junto a um pavilhão.

No outro dia, enquanto os meus camaradas andaram no mato aproveitei o tempo para conhecer um pouco da tabanca, encontrei lá um camarada que tinha conhecido na Figueira da Foz que era quase meu vizinho mas que antes eu não conhecia, era apontador de obus 10,5 fui com ele estávamos a ver um local junto a umas bananeiras onde funcionava a escola segundo ele me disse, mas aí a visita foi interrompida, ouviram-se rebentamentos na zona onde estava a decorrer a operação e o Nogueira desatou em grande correria para junto do obus.

Durante algum tempo enquanto decorria a operação a área foi sobrevoada por uma DO, como as coisas mudaram, ainda não se ouvia falar nos Strela. Também tive oportunidade de ver os fiat bombardear relativamente perto da estrada Xime Bambadinca, aí as coisas também mudaram muito, nesse dia” picaram” quase até chegar à copa das árvores, mais tarde já em Cobumba vi-os bombardear mas a uma altura que nada tinha a ver com o que o que aconteceu no Xime.

Tive também oportunidade de ir até à ponte onde estava pessoal a fazer segurança, depois aproveitei a boleia e fui com três camaradas do Xime até ao cais onde pude ver o movimento que ali havia e também um enorme buraco que tinha sido feito pelo rebentamento de um foguetão, arma de que eu ainda não tinha ouvido falar, mas aí as coisas complicaram-se a viatura que nos tinha levado enquanto nós estávamos a olhar o geba abalou e deixou-nos lá, alguns dos que tinham ido comigo não gostamos de lá ter ficado mas fazia parte do grupo um colega sempre bem- disposto, sempre a rir, vendo que alguns ficamos algo perturbados e continuando a rir disse, não há problema se for preciso até se mija-se na cama e diz-se à mulher que estamos a transpirar. Disseram-me depois que ele era sempre assim, bem- disposto, até lhe chamavam o cavalo que ri.

Em Mansambo viajamos muito, mas tal não significa que corrêssemos mais riscos, durante treze meses apenas uma das nossas viaturas acionou uma mina, em Cobumba tínhamos cerca de um quilómetro para percorrer levamos quatro viaturas acionaram uma cada…

Quando eramos periquitos gostava-mos de saber mais, ver o que até há pouco tempo era para a maioria de nós desconhecido mesmo tendo ouvido falar daquelas paragens a camaradas que antes por lá tinham passado. Talvez por isso tenha ficado gravado na nossa memória que mesmo a esta distância no tempo continua a estar bem presente.

 

António EJ Ferreira


O dia mais triste do meu tempo de Guiné

Quando “tropeçamos” no passado mesmo que tal tenha acontecido há já muito tempo a mente leva-nos a viver situações que podem ser boas ou más, mas não há como fugir. Foi o que aconteceu comigo há dias ao ler um dos postes publicado no blogue Luís Graça e camaradas da Guiné sobre a construção das instalações de Mansambo onde eu estive treze meses.

canarioCheguei aquele local uns dias mais tarde que a minha companhia, e no dia que os “velhinhos” nos deixaram fiz o meu primeiro serviço, acompanhado pela G3 que era para mim quase desconhecida, fui um dos que foram fazer segurança ao pessoal que andava a transportar a água para as nossas instalações, chuveiros, cozinha e abrigos. Eramos oito os homens da companhia incluindo o motorista do unimog e o ajudante, mais os picadores que eram três. A distância entre as nossas instalações e fonte era de poucas centenas de metros mas pela manhã o trajeto era sempre picado para que o unimog 411 e acompanhantes pudessem passar em” segurança” não fosse estar por lá alguma mina colocada durante a noite.

Quando lá chegamos fomo-nos distribuindo para junto de algumas das árvores que lá existiam, só regressamos às instalações próximo da hora de almoço. Foi à sombra de uma de maior porte que me “instalei”. Enquanto lá estivemos não me lembro de ter falado com algum dos camaradas ali em serviço mas sei que o cérebro não parou de pensar, em quase tudo, só que em nada de bom.

Ver os velhinhos partir com a alegria natural de quem conseguiu chegar ao fim da comissão e vai regressar a casa, e pensar no tempo que nos faltava para que também nós pudéssemos viver um dia assim… na altura, falava-se que seria vinte e dois meses depois foram quase vinte e sete. Preparação para a guerra na Metrópole eu não tive, apenas tinha utilizado a arma duas vezes onde disparei cinco tiros de uma vez e vinte de outra.

A minha recruta e a especialidade foi feita em apenas três meses, No Trem Auto, dos quais três semanas foram passadas no hospital, HMDIC em Lisboa, depois oito meses no RAP3 Figueira da Foz com a especialidade de monitor auto. De guerra e armas nada conhecia, daí a minha falta de preparação, tive que me habituar à situação que todos vivemos, mas fui sempre um fraco guerreiro. Era já perto de meio- dia quando regressamos da fonte, estava psicologicamente arrasado, foi então que antes do regresso me ocorreu uma frase que escrevi num papel que tinha comigo e que me acompanhou durante todo o tempo de comissão simplesmente dizia: tem calma, ainda és jovem e o tempo ade passar. Foram várias as vezes que li essa frase assim como outras que entretanto fui escrevendo. Algumas vezes ajudou mesmo… Mas aquele dia foi de todos o mais triste… ainda hoje está presente na minha mente como se fosse ontem. Mais tarde em Cobumba passei por momentos bastante mais difíceis, mas aí, a tristeza não raramente passou a dar lugar à raiva…

António EJ Ferreira.

 

 

 

 

 


Acontecimentos que a memória conserva

canarioQuando cheguei à então província Portuguesa da Guiné, a primeira vez que fui comer ao refeitório nos adidos em Bissau fui confrontado com algo estranho que eu não imaginava que por lá acontecesse, vários jovens africanos não sei se tropa ou milícia, talvez à espera de transporte para o interior, estavam fora do edifício junto às paredes com latas que tinham sido de coca-cola, leite, fruta ou outras, sem tampa de um dos lados que era tirada roçando num local rijo para que a parte perfurada caísse, que colocavam nas aberturas que existiam nos blocos de cimento com que eram construídas as paredes dos pavilhões, para que lá de dentro alguém lhe colocassem restos de comida, se algumas vezes era comida normal… outras levava à mistura espinhas e ossos mas que eles não rejeitavam.

Passado um mês de estar em Bissau fiz a viagem num Dacota até Bafatá e depois em coluna até Bambadinca, onde estive algumas horas à espera de transporte para Mansambo, durante o tempo que lá estive tudo aquilo era para mim um mundo novo, tudo diferente, desconhecido e tão estranho que certamente passei o tempo a olhar em todas as direções. Recordo-me de estar sentado naquele espaço que circundava os pavilhões, onde estavam também algumas mulheres da população, não sei porque estavam ali, talvez à espera de transporte para outra tabanca, estavam quase todas com crianças às costas uma estava a comer uma oleaginosa, coisa que eu desconhecia, olhou para mim já só tinha uma partiu-a em duas com os dentes, depois disse-me qualquer coisa que eu não entendi, e deu-me metade que mesmo sem saber o que era aceitei e comi.

Certo dia fomos fazer segurança, não sei a quem, ainda eramos periquitos, algures entre Bafatá e nova Lamego, quando chegamos à tabanca onde fomos “dormir” era já noite e ninguém tinha água, alguém da população trouxe um alguidar grande cheio, a sede era tanta em que bebemos diretamente no alguidar como se fossemos uma manada de animais…

Em Mansambo prometi ao Serifo o faxina dos condutores, de que eu fazia parte, quando vim de férias à metrópole que lhe levava uns sapatos novos, quando regressei o Serifo já não era o nosso faxina, mandei-o chamar à tabanca e dei-lhe os sapatos, no dia seguinte apareceu lá no nosso abrigo na companhia de vários meninos com os sapatos calçados todos eles exteriorizando uma alegria contagiante com uma galinha que me ofereceu.

Muitos anos já passaram mas jamais esqueci o gesto de solidariedade da senhora que me ofereceu metade da oleaginosa, talvez apercebendo-se de que eu estava completamente perdido…tentando amenizar aquele sofrimento que seria por demais evidente, para quem tinha deixado no hospital a esposa e o filho com poucas horas de nascido e tinha partido para a guerra. A galinha do Serifo e alegria daqueles meninos, ou aquela gente para quem o resto de comida era importante. Nos momentos difíceis com que tenho sido confrontado ao longo da vida, que não tem sido poucos, por estranho que possa parecer, não raramente são estas e outras memórias de situações que lá vivi onde vou buscar muita da força necessária para os enfrentar.

António EJ Ferreira.


Resposta a um comentário

 

A propósito de um comentário ao poste, porque continuo a falar da guerra da então província da Guine, em que me era pedido para esclarecer melhor o que se tinha passado para que os nossos feridos naquela tarde estivessem em Cobumba à espera do heli para serem evacuados e ele não apareceu, o que aconteceu foi o seguinte: Depois do almoço, alguns camaradas nossos que pertenciam a dois plutões da nossa companhia e a uma secção de armas pesadas, que estavam instalados junto às primeiras tabancas logo a seguir ao rio cumbijã, vinham a fazer o trajeto de unimog 404 para o local onde “moravam” os outros dois grupos da companhia o comando e quase toda a formação, que ficava junto a outras tabancas a poucas centenas de metros, Já perto do arame que circundava o sítio para onde se deslocavam junto a umas casas que a nossa companhia estava a construir para a população rebentou uma mina anti – carro, de que resultaram quatro feridos a precisar de ser evacuados.

viatura Cobumba ferido grave o piriquito

A viatura que acionou a mina que provocou os feridos que esperaram toda a tarde pelo heli que não chegou a vir.

Feito o pedido de evacuação, como era normal, fomos informados que a mesma ia ter lugar, os feridos foram levados e colocados em macas no local onde os helicópteros costumavam aterrar, isto por volta das duas da tarde, o tempo foi passando e o barulho do heli que todos esperávamos, não se fez ouvir, já quase noite, recebemos ordens para levar os feridos para Cufar pelo rio Cumbijã, o que viria a acontecer, viagem que para além do nosso pessoal em três sintex que tínhamos na companhia contou com o reforço dos fuzileiros que estavam no Chugué, não muito longe de Cobumba. Já noite chegou a Cufar um Noratlas para fazer a evacuação.

Dos feridos alguns voltaram à companhia, mas pelo menos um ficou tão mal tratado que não mais voltou, não sei o que o futuro lhe terá reservado… chamávamos- lhe o periquito, tinha uns meses a menos que nós na companhia, mas poucos, camarada sempre bem- disposto gostava de dizer que era o Trinitá Cowboy insolente.

Perguntava o ex. militar que também tinha estado na Guiné uns anos mais cedo qual a razão para que aquilo tenha acontecido, a não evacuação com era costume, tal situação ficou a dever-se aos dias de grande confusão que a nossa força aérea estava a viver, com o aparecimento dos misseis Strela que até então eram desconhecidos, pelo menos para muitos de nós que em tal nunca tínhamos ouvido falar. Foram muitos os dias difíceis que vivemos naquele local, Cobumba, mas aquele foi o que mais impacto negativo teve. Para além dos feridos e da sua não evacuação como era normal, do ponto de vista psicológico foi arrasador, o que nos levava a perguntar a nós próprios, mas onde é que nós chegamos se já não podemos contar com uma evacuação se tal for necessário …

Durante algum tempo não tivemos abastecimento de frescos… por helicóptero como algumas vezes acontecia. Nesse período ouve um dia em que uma das refeições foi arroz com marmelada…

Passado aquele tempo de maior confusão as evacuações voltaram a ser feitas no local dentro do tempo normal. Tivemos mais uma em que três camaradas nossos foram evacuados, dois viriam a falecer mas não por falta de apoio em termos de evacuação. A guerra na Guiné com o passar dos anos, sobretudo com a introdução dos Strela, sofreu uma alteração radical, o que leva alguns camaradas que por lá passaram antes de tal acontecer a ter alguma dificuldade em entender como tudo mudou desde o seu tempo. Mas é certo que mudou e muito! Para além dos terríveis misseis, quase todo o armamento do IN era melhor que o nosso, possuíam um c/sr que quando se ouvia a saída o rebentamento já estava a acontecer, nós tínhamos dois na companhia que depois de lançarem algumas granadas ficavam logo a necessitar de reparação, eles tinham o RPG, nós tínhamos a Bazuca arma completamente ultrapassada, apenas dois exemplos.

Um dos motivos para que as coisas se tornassem tão complicadas naquele sítio, como noutros, foi, enquanto alguns locais foram abandonados pelas nossas tropas, outros muito difíceis vieram a ser ocupados, aquele calhou-nos a nós. Era um local onde homens novos alguns dias não se viam por lá, e quando estavam com o aproximar da noite abalavam… As pessoas mais velhas estavam sempre por ali, alguns tinham estado ao serviço do PAIGC, como carregadores de material de guerra, recordo-me do Miranda que dizia, algumas vezes ter ir até ao Xitole levar material, havia várias crianças, o filho do chefe da tabanca andava na escola do PAIGC em Pericuto povoação próximo de nós, não sei qual seria a frequência de alunos.

Os mais velhos que estavam na tabanca passavam muitos dias próximo de um abrigo, debaixo de um mangueiro, que já lá existia quando da nossa chegada àquele local, situação que nos servia de aviso daquilo que estaria previsto acontecer, se algumas vezes nada acontecia outras a confirmação aparecia sem escolher horário…

 

António EJ Ferreira.

 

 

 


Porque vou falando do meu tempo de Guiné?

Quando a minha companhia esteve em Mansambo três dos nossos camaradas ficaram cada um sem um pé, vítimas de rebentamento de minas,  se for dito agora leva alguns a dizer ainda tiveram sorte ficarem só sem um pé, como se alguém com vinte e poucos anos que foi obrigado a deixar tudo e todos e ir para a guerra tivesse sorte em ficar apenas com um pé. Mas já ouvi… Ou quando dois camaradas nossos em Cobumba morreram vítimas de uma mina levantada pelos nossos homens que viria a rebentar na nossa arrecadação, ou ainda, num dos dias mais desmoralizadores que vivemos em todo o tempo de comissão, em Cobumba quando quatro feridos estiveram várias horas esperando que o heli chegasse para fazer a evacuação para Bissau e o heli não chegou… mais tarde, com o tempo de comissão já terminado há muito, outro camarada viria a falecer já na cidade.

Quando alguém tenta explicar porque é que isso aconteceu, são alguns dos próprios que viveram essas situações que acham que isso é perder tempo, dizendo, são coisas que já não interessam. Pois não é esse o meu entendimento. Dar a conhecer o passado, neste caso o que vivemos na guerra, é sempre interessante. Se mais não for, para que aqueles que vierem depois de nós saibam o que nesse tempo aconteceu e porque aconteceu e, se possível, contribuírem para que tal não volte a acontecer… Se esse passado não for dado a conhecer aos mais novos que nasceram no tempo em que não é obrigatório ir à tropa, que aos cinco ou seis anos já usam o telemóvel e alguns até já mexem na Internet, que antes de nascerem os pais já tem um cuidado especial com eles. A resposta deles provavelmente seria, mas que atrasados que eles eram.

Não é novidade para ninguém, ou não deveria ser, que é muito importante arrumar o nosso passado, mas isso não implica esquecer. Sabendo de onde vimos, se mais não for, é sempre mais fácil decidir para onde queremos ir…

Tudo tem um tempo para acontecer. Havia um homem que andou cerca de três anos a colocar degraus para subir a um ponto muito alto onde ninguém antes tinha conseguido subir, faltava pouco para atingir o cimo, um dia, a morte chegou e não conseguiu aquilo porque tanto tinha lutado… Outro continuou o trabalho que há anos ele tinha começado, passados poucos dias chegou ao cimo, nesse dia fizeram uma grande festa e o seu nome ficou gravado para que todos soubessem quem foi o primeiro a chegar àquele sítio. Lamentavelmente esqueceram, que aquele só lá chegou porque outro durante muito tempo trabalhou para que isso fosse possível…

Por tudo isso é bom continuar a haver quem se preocupe em dar a conhecer o nosso passado, neste caso na guerra, sempre com o rigor possível, para que aqueles que vieram depois de nós possam saber as dificuldades porque passamos, se mais não fosse, só a ausência de familiares e amigos durante muitos meses, alguns mais de dois anos naquela que devia e podia ter sido a melhor fase da nossa vida…

Viver num clima de guerra só por si era terrível, mas a esmagadora maioria dos que passaram pela Guiné teve que conviver com o sofrimento de camaradas feridos, quer em combate, vítimas de flagelações á distância ou das terríveis minas em que ficaram marcados para sempre. Outros, não resistiram ao sofrimento e mesmo ali a nosso lado acabaram por perder a vida.

Quando se fala nas migrações como está a acontecer nesta altura faz-me lembrara uma frase que disse a alguns amigos quando cheguei da Guiné: se um dia houver guerra em Portugal só se não puder é que não abalo com a minha família para um país onde exista paz…

Creio, que se o sofrimento que advém da guerra a todos por igual chegasse não haveria na terra homem que em guerra pensasse.

António EJ Ferreira


Almoço de ex-combatentes da aldeia de Molianos…


Quando a manta passou a servir de colchão

 

Quando fomos para Cobumba, foram-nos distribuídos colchões pneumáticos. Eram compostos por cinco partes, mais a almofada, cada uma autónoma no modo de conservar o ar e de serem cheias. Passadas algumas semanas uma dessas partes do meu colchão vaziou, por mais que soprasse para a encher, passados poucos minutos voltava a estar vazia.

Durante algum tempo lá fui dormindo mesmo assim, de esguelha, como os sonos eram sempre de tempo reduzido, tínhamos de fazer reforço todas as noites, e de vez enquanto ainda eramos acordados, ainda que estivéssemos sempre à espera… só nunca sabíamos a que horas, mas lá fui aguentando.

Passadas umas semanas mais uma parte deixou também de conservar o ar, então só tive uma solução que foi vaziar as outras que ainda se mantinham boas e ficar só com a almofada, que se manteve cheia até ao fim da nossa permanência naquele local.

chinelo

Saída do abrigo, local que servia de sala de refeições, tinha acabado de almoçar, a mesa foi construída pelo meu camarada condutor, Cruz.  

A partir dessa altura, a maior parte do tempo que lá estivemos, passei a dormir com uma manta dobrada a servir de colchão, nada agradável, a cama tinha sido feita por mim com tábuas que ia aproveitando de caixas que tinham servido para levar bacalhau e outras coisas, embora eu não tivesse grande jeito para carpinteiro, mas a necessidade a isso obrigou.

No início, ainda dormíamos no chão, com o chegar da época das chuvas, em abrigos subterrâneos em que a cobertura era feita de troncos de palmeiras cobertos de terra, a água começou a infiltrar-se fizemos uma cobertura de capim, cada um teve de desenrascar o melhor que pôde. O tempo passou mas foi uma das muitas situações que não é fácil esquecer.

Para quem estava privado de quase tudo que necessitava, naquele buraco de difícil acesso, a falta de colchão era apenas mais uma…

António EJ Ferreira