Resposta a um comentário

 

A propósito de um comentário ao poste, porque continuo a falar da guerra da então província da Guine, em que me era pedido para esclarecer melhor o que se tinha passado para que os nossos feridos naquela tarde estivessem em Cobumba à espera do heli para serem evacuados e ele não apareceu, o que aconteceu foi o seguinte: Depois do almoço, alguns camaradas nossos que pertenciam a dois plutões da nossa companhia e a uma secção de armas pesadas, que estavam instalados junto às primeiras tabancas logo a seguir ao rio cumbijã, vinham a fazer o trajeto de unimog 404 para o local onde “moravam” os outros dois grupos da companhia o comando e quase toda a formação, que ficava junto a outras tabancas a poucas centenas de metros, Já perto do arame que circundava o sítio para onde se deslocavam junto a umas casas que a nossa companhia estava a construir para a população rebentou uma mina anti – carro, de que resultaram quatro feridos a precisar de ser evacuados.

viatura Cobumba ferido grave o piriquito

A viatura que acionou a mina que provocou os feridos que esperaram toda a tarde pelo heli que não chegou a vir.

Feito o pedido de evacuação, como era normal, fomos informados que a mesma ia ter lugar, os feridos foram levados e colocados em macas no local onde os helicópteros costumavam aterrar, isto por volta das duas da tarde, o tempo foi passando e o barulho do heli que todos esperávamos, não se fez ouvir, já quase noite, recebemos ordens para levar os feridos para Cufar pelo rio Cumbijã, o que viria a acontecer, viagem que para além do nosso pessoal em três sintex que tínhamos na companhia contou com o reforço dos fuzileiros que estavam no Chugué, não muito longe de Cobumba. Já noite chegou a Cufar um Noratlas para fazer a evacuação.

Dos feridos alguns voltaram à companhia, mas pelo menos um ficou tão mal tratado que não mais voltou, não sei o que o futuro lhe terá reservado… chamávamos- lhe o periquito, tinha uns meses a menos que nós na companhia, mas poucos, camarada sempre bem- disposto gostava de dizer que era o Trinitá Cowboy insolente.

Perguntava o ex. militar que também tinha estado na Guiné uns anos mais cedo qual a razão para que aquilo tenha acontecido, a não evacuação com era costume, tal situação ficou a dever-se aos dias de grande confusão que a nossa força aérea estava a viver, com o aparecimento dos misseis Strela que até então eram desconhecidos, pelo menos para muitos de nós que em tal nunca tínhamos ouvido falar. Foram muitos os dias difíceis que vivemos naquele local, Cobumba, mas aquele foi o que mais impacto negativo teve. Para além dos feridos e da sua não evacuação como era normal, do ponto de vista psicológico foi arrasador, o que nos levava a perguntar a nós próprios, mas onde é que nós chegamos se já não podemos contar com uma evacuação se tal for necessário …

Durante algum tempo não tivemos abastecimento de frescos… por helicóptero como algumas vezes acontecia. Nesse período ouve um dia em que uma das refeições foi arroz com marmelada…

Passado aquele tempo de maior confusão as evacuações voltaram a ser feitas no local dentro do tempo normal. Tivemos mais uma em que três camaradas nossos foram evacuados, dois viriam a falecer mas não por falta de apoio em termos de evacuação. A guerra na Guiné com o passar dos anos, sobretudo com a introdução dos Strela, sofreu uma alteração radical, o que leva alguns camaradas que por lá passaram antes de tal acontecer a ter alguma dificuldade em entender como tudo mudou desde o seu tempo. Mas é certo que mudou e muito! Para além dos terríveis misseis, quase todo o armamento do IN era melhor que o nosso, possuíam um c/sr que quando se ouvia a saída o rebentamento já estava a acontecer, nós tínhamos dois na companhia que depois de lançarem algumas granadas ficavam logo a necessitar de reparação, eles tinham o RPG, nós tínhamos a Bazuca arma completamente ultrapassada, apenas dois exemplos.

Um dos motivos para que as coisas se tornassem tão complicadas naquele sítio, como noutros, foi, enquanto alguns locais foram abandonados pelas nossas tropas, outros muito difíceis vieram a ser ocupados, aquele calhou-nos a nós. Era um local onde homens novos alguns dias não se viam por lá, e quando estavam com o aproximar da noite abalavam… As pessoas mais velhas estavam sempre por ali, alguns tinham estado ao serviço do PAIGC, como carregadores de material de guerra, recordo-me do Miranda que dizia, algumas vezes ter ir até ao Xitole levar material, havia várias crianças, o filho do chefe da tabanca andava na escola do PAIGC em Pericuto povoação próximo de nós, não sei qual seria a frequência de alunos.

Os mais velhos que estavam na tabanca passavam muitos dias próximo de um abrigo, debaixo de um mangueiro, que já lá existia quando da nossa chegada àquele local, situação que nos servia de aviso daquilo que estaria previsto acontecer, se algumas vezes nada acontecia outras a confirmação aparecia sem escolher horário…

 

António EJ Ferreira.

 

 

 

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Onde a falta de vocação mais se faz sentir

Se a falta de vocação faz toda a diferença para quem exerce qualquer profissão, existem duas onde ela mais se faz sentir. Todos nós, ao longo da vida, uns mais atentos outros menos, somos confrontados com pessoas a exercer determinados serviços para os quais é bem visível não terem vocação. Dirão alguns mas isso é normal! Claro que é! Se forem trabalhadores de uma qualquer empresa cabe aos gerentes saber se os devem manter ou não. Se trabalharem por sua conta serão os próprios a sofrer as consequências dessa falta. Até aí tudo normal, mas existem situações em que as coisas não funcionam assim.

As duas classes a que me refiro e, onde em meu entender tal não devia acontecer são as classes médicas e de enfermagem. Depois do décimo segundo ano basta possuírem os valores que tornam possível o acesso a essas carreiras, tal facilitismo, por vezes, acarreta consequências que mais tarde se fazem sentir com prejuízo na maioria dos casos para o serviço nacional de saúde e, sobretudo para os doentes que se sentem impotentes quando confrontados com tal situação em que o transtorno emocional provocado chega a ser de tal ordem que só quem alguma vez o viveu sabe o que custa…

Se, são uma minoria os profissionais que exercem estas profissões para as quais não tem vocação, talvez fosse fácil de resolver se, para tal, mesmo possuindo os valores que dão acesso a essas carreiras fossem sujeitos a um teste de vocação. Será difícil de implementar talvez! Mas todos teriam a ganhar, mesmo alguns a quem o acesso fosse vetado, como pessoas inteligentes que são, certamente escolheriam outra área onde pudessem vir fazer aquilo para que tem vocação, e quem faz o que gosta na vida esta torna-se sempre mais fácil.

Sou possuidor de algumas doenças crónicas entre elas a asma que já me faz companhia há cerca de trinta e cinco anos, o que me leva a quando o inverno chega, normalmente, tenha de recorrer ao hospital, durante todos estes anos, algumas vezes, tenho sido confrontado com situações difíceis, que me escuso a relatar pois seria lembrar momentos de sofrimento, talvez por isso este meu reparo na tal falta de vocação, de alguns médicos.

António EJ Ferreira

 


Porque vou falando do meu tempo de Guiné?

Quando a minha companhia esteve em Mansambo três dos nossos camaradas ficaram cada um sem um pé, vítimas de rebentamento de minas,  se for dito agora leva alguns a dizer ainda tiveram sorte ficarem só sem um pé, como se alguém com vinte e poucos anos que foi obrigado a deixar tudo e todos e ir para a guerra tivesse sorte em ficar apenas com um pé. Mas já ouvi… Ou quando dois camaradas nossos em Cobumba morreram vítimas de uma mina levantada pelos nossos homens que viria a rebentar na nossa arrecadação, ou ainda, num dos dias mais desmoralizadores que vivemos em todo o tempo de comissão, em Cobumba quando quatro feridos estiveram várias horas esperando que o heli chegasse para fazer a evacuação para Bissau e o heli não chegou… mais tarde, com o tempo de comissão já terminado há muito, outro camarada viria a falecer já na cidade.

Quando alguém tenta explicar porque é que isso aconteceu, são alguns dos próprios que viveram essas situações que acham que isso é perder tempo, dizendo, são coisas que já não interessam. Pois não é esse o meu entendimento. Dar a conhecer o passado, neste caso o que vivemos na guerra, é sempre interessante. Se mais não for, para que aqueles que vierem depois de nós saibam o que nesse tempo aconteceu e porque aconteceu e, se possível, contribuírem para que tal não volte a acontecer… Se esse passado não for dado a conhecer aos mais novos que nasceram no tempo em que não é obrigatório ir à tropa, que aos cinco ou seis anos já usam o telemóvel e alguns até já mexem na Internet, que antes de nascerem os pais já tem um cuidado especial com eles. A resposta deles provavelmente seria, mas que atrasados que eles eram.

Não é novidade para ninguém, ou não deveria ser, que é muito importante arrumar o nosso passado, mas isso não implica esquecer. Sabendo de onde vimos, se mais não for, é sempre mais fácil decidir para onde queremos ir…

Tudo tem um tempo para acontecer. Havia um homem que andou cerca de três anos a colocar degraus para subir a um ponto muito alto onde ninguém antes tinha conseguido subir, faltava pouco para atingir o cimo, um dia, a morte chegou e não conseguiu aquilo porque tanto tinha lutado… Outro continuou o trabalho que há anos ele tinha começado, passados poucos dias chegou ao cimo, nesse dia fizeram uma grande festa e o seu nome ficou gravado para que todos soubessem quem foi o primeiro a chegar àquele sítio. Lamentavelmente esqueceram, que aquele só lá chegou porque outro durante muito tempo trabalhou para que isso fosse possível…

Por tudo isso é bom continuar a haver quem se preocupe em dar a conhecer o nosso passado, neste caso na guerra, sempre com o rigor possível, para que aqueles que vieram depois de nós possam saber as dificuldades porque passamos, se mais não fosse, só a ausência de familiares e amigos durante muitos meses, alguns mais de dois anos naquela que devia e podia ter sido a melhor fase da nossa vida…

Viver num clima de guerra só por si era terrível, mas a esmagadora maioria dos que passaram pela Guiné teve que conviver com o sofrimento de camaradas feridos, quer em combate, vítimas de flagelações á distância ou das terríveis minas em que ficaram marcados para sempre. Outros, não resistiram ao sofrimento e mesmo ali a nosso lado acabaram por perder a vida.

Quando se fala nas migrações como está a acontecer nesta altura faz-me lembrara uma frase que disse a alguns amigos quando cheguei da Guiné: se um dia houver guerra em Portugal só se não puder é que não abalo com a minha família para um país onde exista paz…

Creio, que se o sofrimento que advém da guerra a todos por igual chegasse não haveria na terra homem que em guerra pensasse.

António EJ Ferreira


Molianos e a extração de pedra.

Nos Molianos, existem locais onde ainda hoje são visíveis vestígios de pedreiras de outro tempo de onde terá saído pedra para a construção do mosteiro de Alcobaça. Algumas pessoas atribuem o nome de Moleanos à extração de pedra que no passado daqui teria saído para fazer mós para os moinhos que existiam na região. Daí, escreverem Moleanos e, não Molianos.

Versão não corroborada pelas pessoas nascidas na aldeia nos fins do século dezanove, e foram muitas com quem ainda tive a oportunidade de conversar, todas disseram que sempre ouviram dizer aos seus antepassados que o nome da nossa aldeia se ficou a dever às primeiras pessoas que vieram morar para este local, que tinham no seu nome o apelido Molianos. Também nenhuma se lembrava de ver em atividade qualquer pedreira dessas cujos vestígios ainda hoje podem ser observados.

No início da década de sessenta do século passado teve início a exploração de pedreiras da nova geração que, com o passar do tempo, vieram a revolucionar a vida da aldeia e, direta ou indiretamente de toda a população. Uns, porque eles ou familiares passaram a ter trabalho próximo de casa, outros que tiveram oportunidade de vender terrenos por bom preço se não fosse a extração de pedra pouco valor tinham, graças ao aumento do poder de compra muitas outras atividades foram beneficiadas também. Assim como para muitos que de fora da terra para cá vieram trabalhar.

Severino

Hoje a pedra que sai dos molianos tornou-se conhecida não só em Portugal, como por muitos países de vários continentes. Mas, sem o primeiro passo nunca teria existido o segundo. E o primeiro foi dado pelo senhor Américo Ferreira Severino, aqui na foto, com abertura da pedreira da Cavadinha, assim como noutros locais. Mas foi na Cavadinha que tudo começou…

No início parecia um trabalho de algum aventureiro à deriva… E, de facto foi uma autêntica aventura, só possível a alguém que está muito à frente do tempo em que está a viver. Mas como acontece à maioria daqueles que possuem essas qualidades, o resultado do seu trabalho raramente lhe traz qualquer proveito, sendo mais tarde aproveitado por outros. O senhor Américo Ferreira Severino foi, e apesar de já não estar entre nós, continua a ser um desses exemplos.

A todas as ruas e outros espaços públicos da aldeia, nos últimos anos, foram atribuídos nomes, alguns com pouco significativos, quando existiram na nossa terra pessoas por aquilo que fizeram, para bem da comunidade, são simplesmente esquecidas, seria da mais elementar justiça que a uma rua ou obra nos Molianos fosse atribuído o nome do senhor Américo Ferreira Severino. Talvez assim, alguns que hoje se pavoneiam algures por ai, ficassem a saber que foi graças à iniciativa de alguém que hoje podem ter tal comportamento…

António EJ Ferreira

 


A condução e a pressa seria bom estarem sempre afastadas…

 

DSCF1790É lamentável, mas acontece. A velocidade a que maioria dos condutores circula na rua D. Maria Pia que atravessa a aldeia de Molianos, cerca de três quilómetros, está a ultrapassar os limites do aceitável.

Antes do último alcatroamento era pouca a sinalização existente, atualmente está devidamente sinalizada, mas de pouco vale se as regras de trânsito não forem respeitadas, não raramente se encontram crianças a andar de bicicleta assim como muitas pessoas caminhando ou atravessando a rua, alguns nem se apercebem do perigo que correm, se tais comportamentos não forem alterados, é caso para perguntar! Quando acontecerá a tragédia.

Como se não bastasse a velocidade excessiva com que a maioria circula, junta-se ainda a irresponsabilidade de alguns que cruzando-se com alguém com querem conversar não raramente mudam de faixa e param fora de mão só porque a pessoa com quem querem falar vem ou está do lado contrário da rua… isto para não falar da forma como muitos estacionam o carro, para caminhar menos dois ou três metros a pé deixam-no fora de mão, não importa onde, algumas vezes dificultando a passagem de outros veículos.

Por favor senhores condutores, se gostam de conduzir a alta velocidade existem locais apropriados para o fazer, mas esses não serão nunca aqueles onde se coloca em causa a integridade física dos outros como está a acontecer na nossa aldeia.

Aos condutores mais novos será bom lembrar que tem muito tempo para ter aborrecimentos, para que tal não aconteça, um pouco mais de calma é uma boa ajuda… A alguns dos mais idosos recordar aquilo que há muito eles sabem, na condução a pressa nunca foi boa companheira.

Por último, enaltecer o comportamento daqueles que respeitam as mais elementares normas de boa condução dentro das localidades, entre outras, respeitar a velocidade a que a lei obriga e a sinalização existente. Infelizmente são a minoria…

António EJ Ferreira.

 


Uma geração que atingiu a idade adulta sem ter sido criança(2)

Eram-mos empregados do estado, recebíamos à quinzena, mas apenas as horas que trabalhássemos. Tempo de serviço que mais tarde não contou para efeitos de reforma. No inverno, algumas vezes, depois de subirmos a serra e ter trabalhado uma ou duas horas tínhamos que regressar a casa porque a chuva e o vento a isso obrigavam.

O trabalho na floresta como então era designado, na primeira faze, dos Molianos até chegar ao fim durou cerca de três anos. Com o passar do tempo alguns foram deixando a nossa terra para trabalhar noutros sítios. Era duro o trabalho na serra para jovens daquelas idades, com a agravante da viagem até ao local ser feita a pé, para o fim chegava a demorar mais de uma hora para cada lado. O ordenado no fim da quinzena era sempre para entregar aos pais. Algumas vezes combinávamos quando recebermos, entre todos, vamos ver se conseguimos comprar uma bola, esse dia nunca chegou…

Ainda muito novos, quase todos passaram também pelas vindimas, naquela que na nossa aldeia chamavam a região saloia, que no caso se estendia apenas pelos concelhos do Cadaval, Bombarral e Alenquer. Mais tarde foram vendedores ambulantes de leite em Lisboa, tinham por essa altura aproximadamente 16 anos. As meninas, algumas foram também trabalhar para Lisboa, as que continuaram na nossa aldeia no tempo das vindimas iam para o Vale de Santarém. O trabalho remunerado por cá para os mais novos era pouco, a exceção era o tempo da apanha da azeitona.

Eram muitos os jovens na aldeia naquele tempo, mas a maioria estava quase sempre  fora, os poucos rapazes que não saiam  da terra para trabalhar, algumas vezes, queriam jogar a bola mas não conseguiam fazer duas equipas, a não ser com dois ou três de cada lado.

Com o passar do tempo as guerras coloniais cada vez mais “próximas”e sem fim à vista, para além duma infância de trabalho sem qualquer regalia, começava mais um pesadelo para os rapazes que não sabiam o que o futuro lhes reservava mas não deixava antever coisa boa. Para as raparigas o pesadelo não era menor, era um familiar um amigo ou o namorado que viam partir,  quando tal acontecia grande parte da sua já reduzida liberdade passava a ser ainda menos, não iam a um baile, festas da aldeia apenas às de cariz religioso e nem sempre…

Os rapazes da nossa aldeia do grupo que foram para escola naquele ano de 1957, chegou um dia em que fomos às sortes como então se dizia por cá. Tivemos todos a mesma sorte, aptos para todo o serviço militar. Não demorou muito tempo para que três fossem até à Guiné um para Angola e o outro para Timor. Com todas estas ocupações e muitas outras que aqui foram descritas, não tivemos mesmo tempo para ser crianças…

António Eduardo Jerónimo Ferreira


Uma geração que atingiu à idade adulta sem ter sido criança (1)

No dia sete de outubro de mil novecentos e cinquenta e sete, era segunda- feira, davam entrada pela primeira vez no posto escolar misto de Covões, aldeia do concelho Alcobaça, para frequentar o ensino primário um grupo de quinze meninos e meninas que chegaram a adultos “sem ter sido crianças.

Durante três anos andamos na mesma escola, nem sempre juntos, dependia da evolução de cada um, alguns passavam de classe, como então se dizia, outros iam ficando na mesma. Passado esse período de tempo houve uma separação que teve a ver com a entrada em atividade da escola da Pedreira de Molianos ou Termo de Évora, como também era conhecida a parte mais a sul da aldeia. Para lá, foram todos os que pertenciam à freguesia de Évora assim como os que moravam na cavadinha e no lameirão, que pertenciam à freguesia de Prazeres de Aljubarrota mas também foram para a nova escola. Alguns com aquela mudança deixaram de percorrer a distância de seis quilómetros que todos dias faziam a pé, alguns iam descalços…

Com o passar do tempo já ninguém fala na Pedreira ou Termo de Évora, a não ser alguns dos mais idosos que por vezes ainda falam em tal designação.

Depois do tempo de escola, para alguns quatro anos, para outros chegava a ser até esgotar o tempo obrigatório… No ano de 1963, a maioria voltou a juntar-se, agora não na escola, mas a cortar mato e cavar na serra dos candeeiros. Na sementeira de pinhal que então tinha lugar, só não passaram por lá aqueles que por essa altura já tinham saído para outras paragens, normalmente para Lisboa, também  para trabalhar…

Quase não podiam com a enxada ou com o sachão que também utilizavam, mas há muito sabiam o que era fazer pequenos trabalhos no campo. A vontade de trabalhar para ajudar os pais, e a esperança que no fim da quinzena pudessem receber alguns escudos, poucos, o que nem sempre acontecia, levava a ultrapassar algumas dessas dificuldades. Era uma época difícil em que as alternativas eram poucas. Alguns jovens tinham qualidades para poderem continuar a estudar, mas isso só por si não chegava…

Apesar da pouca idade, o serviço era o mesmo dos mais velhos só o ordenado era diferente. Alguns dos rapazes que foram uns dias mais cedo quando os trabalhos começaram a aproximar-se da nossa aldeia, do lado do sul, ficaram a ganhar o ordenado dos homens, trinta e cinco escudos, passado pouco tempo, talvez devido ao excesso de oferta os que foram entrando passaram a ganhar apenas vinte cinco. As meninas ganhavam o mesmo ordenado que as mulheres, vinte escudos.

Continua