Uma geração que atingiu à idade adulta sem ter sido criança (1)

No dia sete de outubro de mil novecentos e cinquenta e sete, era segunda- feira, davam entrada pela primeira vez no posto escolar misto de Covões, aldeia do concelho Alcobaça, para frequentar o ensino primário um grupo de quinze meninos e meninas que chegaram a adultos “sem ter sido crianças.

Durante três anos andamos na mesma escola, nem sempre juntos, dependia da evolução de cada um, alguns passavam de classe, como então se dizia, outros iam ficando na mesma. Passado esse período de tempo houve uma separação que teve a ver com a entrada em atividade da escola da Pedreira de Molianos ou Termo de Évora, como também era conhecida a parte mais a sul da aldeia. Para lá, foram todos os que pertenciam à freguesia de Évora assim como os que moravam na cavadinha e no lameirão, que pertenciam à freguesia de Prazeres de Aljubarrota mas também foram para a nova escola. Alguns com aquela mudança deixaram de percorrer a distância de seis quilómetros que todos dias faziam a pé, alguns iam descalços…

Com o passar do tempo já ninguém fala na Pedreira ou Termo de Évora, a não ser alguns dos mais idosos que por vezes ainda falam em tal designação.

Depois do tempo de escola, para alguns quatro anos, para outros chegava a ser até esgotar o tempo obrigatório… No ano de 1963, a maioria voltou a juntar-se, agora não na escola, mas a cortar mato e cavar na serra dos candeeiros. Na sementeira de pinhal que então tinha lugar, só não passaram por lá aqueles que por essa altura já tinham saído para outras paragens, normalmente para Lisboa, também  para trabalhar…

Quase não podiam com a enxada ou com o sachão que também utilizavam, mas há muito sabiam o que era fazer pequenos trabalhos no campo. A vontade de trabalhar para ajudar os pais, e a esperança que no fim da quinzena pudessem receber alguns escudos, poucos, o que nem sempre acontecia, levava a ultrapassar algumas dessas dificuldades. Era uma época difícil em que as alternativas eram poucas. Alguns jovens tinham qualidades para poderem continuar a estudar, mas isso só por si não chegava…

Apesar da pouca idade, o serviço era o mesmo dos mais velhos só o ordenado era diferente. Alguns dos rapazes que foram uns dias mais cedo quando os trabalhos começaram a aproximar-se da nossa aldeia, do lado do sul, ficaram a ganhar o ordenado dos homens, trinta e cinco escudos, passado pouco tempo, talvez devido ao excesso de oferta os que foram entrando passaram a ganhar apenas vinte cinco. As meninas ganhavam o mesmo ordenado que as mulheres, vinte escudos.

Continua

Anúncios


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s