Tradições da nossa aldeia

Recordando a matança do porco nos Molianos, tradição que durou até princípios da década de oitenta do século passado.

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Com início no mês de Novembro e, por um período de tempo que chegava ao entrudo, tinham lugar as matanças do porco na nossa aldeia.

Mais que o simples abate do animal, era um dia em que se juntava toda a família e alguns amigos. Havia casas onde a festa para todos durava dois dias, outras era apenas um.

Os preparativos começavam na véspera: organizar o espaço onde iam ter lugar as refeições colocando mesas e bancos muitas vezes improvisados, numa das divisões da casa (quase sempre na casa de fora) poucos eram os que tinham anexos que pudessem ser utilizados para o efeito, as crianças quando não cabiam todos na mesa comiam no chão ou em cima de uma arca grande, era também na véspera à noite que eram feitos os fritos, velhoses, com o passar dos anos apareceram também as grades, só havia em dia de festa.

Logo manhã cedo, os primeiros a chegar eram os homens, tinham como função principal matar o porco, mas antes, tinha lugar o mata- bicho, que constava de aguardente e café feito na cafeteira, ou na panela se fossem muitos a beber.

Depois era chegado o momento de se atirarem ao “bicho”, tarefa por vezes complicada, eram quase sempre animais de grande porte, alguns com anos de vida, habituados a regime livre nos pátios, que havia junto à casa de habitação, ver aqui.

A morte era feita a joelho, o animal era agarrado, deitado de costas, uns seguravam-lhe os pés, outros as mãos e, um ao mesmo tempo que lhe colocava o joelho na goela, que lhe viria a provocar a morte por asfixia, agarrava também as mãos ajudando os outros a segurar e a manter o seu próprio equilíbrio, pois a reação do animal pelo menos no início, era forte.

Quando já não dava sinais de vida era altura de iniciar o ato de chamuscar, com chamuscos (tojo miudinho) que uns dias antes o dono já tinha apanhado nas terras de mato, muito procurados na época das matanças.

Depois de chamuscado e lavado, era pendurado num anexo da casa ou na cozinha, onde a primeira tarefa era dar um golpe na parte de cima do focinho para começar a sangrar enquanto os homens comiam bacalhau cozido com azeite e pão, quase sempre de milho (a broa) e começavam a beber “uns copos,” o pão de trigo naquele tempo era pouco e nem sempre à discrição.

Era chegada a altura de abrir o porco, tarefa que cabia a um homem e dois ajudantes.Depois de aberto e retirado tudo do seu interior, uma das operações que suscitava mais curiosidade nos presentes era o golpe que era feito no meio do lombo do animal de alto a baixo, expectativa essa que tinha a ver com a espessura de toucinho que o animal teria, se tivesse toucinho alto era motivo de alegria, toucinho que depois de salgado e guardado na salgadeira durava muito tempo, nada era desperdiçado, com as banhas do porco e o azeite era a única gordura que as pessoas dispunham para temperar os alimentos ao longo do ano.

Se até então o trabalho tinha sido feito por homens a partir daí entravam em ação as mulheres, umas preparando a cachola, outras separando a gordura das tripas para depois serem lavadas, serviço onde entravam também as crianças, segurando um recipiente com água que iam deitando dentro da tripa sempre que a mulher que estava a lavar lhe pedia.

Depois das tripas lavadas, chegava a hora de jantar, sopa de grão e a cachola guisada com batatas, e de novo o bacalhau regado com azeite, (se não fosse possível lavar as tripas antes seria depois do jantar). A cachola podia ser de maior ou menor dimensão dependia do tamanho do animal, mas chegava sempre para todos, as pessoas que estavam sentadas à mesa é que tiravam do tacho aquilo que desejavam comer… nunca tiravam muito para que pudesse chegar. Chegava sempre!

A ceia, naquele dia era a sopa de carne do cozido, que era feito com a carne do porco: o coração, o osso do peito, os bofes e a língua, havia também as morcelas, acabadas de fazer. Pela noite dentro enquanto as mulheres iam lavando a loiça e, conversando, os homens jogavam as cartas e iam bebendo, não raramente quando a animação era maior os que tinham mais jeito iam cantando ao desafio até altas horas, para as crianças tinha sido um dia de brincadeira, quando a noite ia avançada e o cansaço tomava conta delas… aos poucos quase todos adormeciam, aí eram as mães a tomar conta dos filhos.

As matanças do porco naquele tempo aconteciam a qualquer dia da semana, as pessoas trabalhavam no campo, era por altura do inverno quando havia menos trabalho, e também, na época em que menos pessoas andavam a trabalhar fora da terra.

A desmancha era sempre feita no dia a seguir à matança, um homem desmanchava o porco, cortando a carne em peças para serem colocadas na salgadeira, os ossos ao serem desmanchados era lhe retirada a carne, quase toda, e cortados para serem salgados. A pessoa que salgava tinha que ter conhecimento e experiência, caso contrário podia estar comprometida a conservação.

Enquanto uns iam desmanchando, havia sempre quem se disponibilizasse para assar os rins na brasa, para comerem durante um breve intervalo. Depois da carne salgada e colocada na salgadeira, era chegado o tempo de voltarem à mesa para jantar, que era o resto da ceia do dia anterior, e as morcelas.

A ceia no segundo dia, era a sopa fervida feita no caldo onde tinham sido cozidos os ossos da cabeça, a carne só lhe era retirada depois de cozidos, era um dos pratos mais do agrado das pessoas naquele tempo.

Grande parte da carne magra e algumas morcelas era distribuída por familiares e amigos, se para uns era a retribuição de dádivas, para outros mais pobres era o espírito de solidariedade que existia entre vizinhos.

Quem também não era esquecido eram as mulheres grávidas; a todas eram levadas as sopas, tradição muito antiga na nossa aldeia, o que as levava nesse dia a esperar que alguém lhe batesse à porta para fazer essa entrega, que era composta por sopas de pão com caldo do cozido e uma morcela, algumas vezes também um pouco carne.

A entrega das sopas era feita por alguns dos mais novos, que estavam sempre disponíveis, porque em troca quase sempre recebiam alguns tostões, que lhe era dado pelas pessoas onde se deslocavam.

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As senhoras que vemos na foto, a Maria Luísa Jerónimo com oitenta e três anos, e a Maria Angélica de Sousa com oitenta e seis, em crianças também chegaram a ir leva as sopas a senhoras grávidas.

Nota: nas últimas décadas a alimentação viria a sofrer algumas alterações, passou a incorporar carne de galinha caseira ou coelho, e em casa de algumas famílias, carne de vaca, também o arroz doce servido em pratos grandes, de onde cada um tirava o que queria comer, nunca tirava muito para chegar para todos, as bebidas para além do vinho, passou a haver refrigerantes.

Nas famílias onde a festa para todos era só um dia, a sopa fervida era servida à ceia, no dia da matança, feita do cozido. Só quando era no segundo, eram feitas no caldo de cozer os ossos da cabeça.

Até à década de quarenta, no início das refeições, comiam broa, quando vinha para a mesa a cachola vinha também o pão de trigo, o que levava alguns que ainda tinham algum pedaço de broa para comer, disfarçadamente a atira-la para debaixo da mesa para comer o pão alvo.   

Alguns nomes referidos no texto, com o passar dos anos caíram em desuso, ou foram alterados, por ex. a designação das refeições em que o jantar tinha lugar entre a uma e as duas horas da tarde e, a ceia era a refeição da noite, ou o pão alvo.

António EJ Ferreira

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