Estórias de Mansambo, aqui a guerra era outra.

Esta, era a parte de trás de um abrigo onde se pode ver umas pequenas aberturas que serviam para poder utilizar as armas em direção ao arame farpadoresort que circundava o aquartelamento, cerca de treze meses foi a minha residência, não era nada mau, mas isso deve-se aos primeiros camaradas que ali foram colocados, onde apenas existia mata, que muito tiveram de trabalhar para os construir, a única coisa boa que por ali havia era uma fonte, que viria a abastecer o aquartelamento, ainda que, para a ir buscar a água apesar de ficar a cerca de duzentos metros do arame, todos os dias esse trajeto era picado e a segurança feita por seis ou sete militares que ali se mantinham enquanto o unimog 411 “o burrinho” ia fazendo várias viagens, abastecendo os chuveiros e os abrigos. Para além do condutor, que era sempre o mesmo, andava mais um camarada para ajudar na carga e descarga, que era feita com uma terrina da sopa.

O primeiro serviço que fiz em Mansambo foi segurança à fonte, no dia em que os velhinhos nos deixaram. Talvez o dia mais triste do meu tempo de Guiné. Outros mais dramáticos aconteceram, mas a maturidade já era outra…

Parte deste abrigo servia de alojamento à maioria dos condutores que lá estávamos, ali era a residência de sete, na hora das refeições juntava-se a nós o Ladeira, que tinha a especialidade de clarim ou corneteiro… mas tal especialidade não era necessária na nossa companhia. Os homens da corneta passaram a ser padeiros.

Como diz o povo, para aprendermos temos de passar por elas… Certo dia o jantar era bacalhau à Gomes Sá, o bacalhau até era muito, mas as espinhas eram mais volumosas que a parte comestível—, comestível não é bem assim, porque para alguns humanos as espinhas também são comestíveis. Quando estávamos a começar a jantar o Ladeira lembrou-se de dizer, se me pagarem uma cerveja como as espinhas todas, eu achava que isso seria impossível, disse; eu pago, tens é de comer tudo que está no prato. O condutor Abílio “já falecido” disse também—, eu pago outra, então não é que o amigo Ladeira demorou um pouquinho mais tempo que nós a comer e, ao mesmo tempo bebendo as cervejas, mas o prato ficou completamente limpo.

Depois ainda disse se pagarem outra, como mais uma dose. Claro que a resposta aí foi—, agora se quiseres comer mais, terás de pagar tu a cerveja.

Foi uma boa lição, quando era mais novo e ouvia alguém dizer que apostava que era capaz de comer ou beber quantidades aparentemente impossíveis, lembrava-me logo do Ladeira… No que toca a comer ou beber, para algumas pessoas, quase tudo é possível.

A última vez que o vi foi no último almoço da nossa companhia, a “CART 3493”há cerca de três anos, estava ótimo, espero que assim continue, para ele um abraço.

António Eduardo Ferreira

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