A viagem mais desejada, o regresso a casa

cola

Aqui estava encostado a uma papaeira, no local onde passei os últimos meses de comissão, COMBIS/Bissau, faltavam poucos dias para regressar à metrópole, mas a incerteza quanto ao regresso era total, o tempo “normal” de comissão há já muito que terminara. Só no dia, e com o avião no ar, nos convencemos que era mesmo verdade, estávamos a deixar a guerra e a regressar a casa, eram cerca de dez horas locais quando embarcamos no aeroporto de Bissalanca.

Antes, tinha aproveitado para gastar o resto dos pesos que tinham sobrado, eram poucos, depois foi o tão desejado embarque.

Durante cerca de vinte minutos o avião esteve sujeito a uma turbulência nada agradável, mas pensar que aquela era a viagem que muitos de nós chegamos a pensar que poderíamos não chegar a fazer…

Depois desses minutos agitados, a que fomos sujeitos, o resto da viagem decorreu normalmente. Na tarde desse dia “dois de Abril de 1974” o avião aterrava no aeroporto da portela com saída pelo figo maduro e, dali para o RAL 1, (Creio que se chamava assim) onde fizemos o resto do espólio, depois foi o regresso à vida civil.

A guerra já não viria a durar muito tempo,  poucos dias antes tinha acontecido o dezasseis de Março, no mês seguinte, aconteceu o movimento dos capitães, a vinte cinco de Abril.

Com tantas ocorrências, em tão pouco tempo, fiquei de algum modo confuso. A grande preocupação,  que bastante me afligia, era pensar se o material de guerra faltava, particularmente aos que nos tinham ido render a Cobumba, como seria que conseguiam dar conta do “recado… assim como todos aqueles que estavam nas piores zonas de guerra, que eram muitas.

Politicamente, não tinha nenhum conhecimento daquilo que estava a acontecer, daí que, enquanto a maioria das pessoas vivia intensamente em clima de festa, eu, só depois de saber que os combates na Guiné tinham terminado, fiquei mais tranquilo, porque até então passei alguns dias bastante perturbado.

Mas felizmente aquilo que mais me preocupava, não aconteceu. Outras situações aconteceram, de que muitos se deviam  envergonhar, mas a guerra é assim, todos saem a perder, só que uns mais que outros…

António EJ Ferreira

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