Conversa virtual entre um casal de ressuscitados

 DSCF1129Há mais de um século que tinham partido, voltaram à terra e, iniciaram uma breve viagem por sítios onde há muito tinham andado.

Começaram por visitar o mercado onde aos domingos foram algumas vezes. Junto a uma barraca onde se vendia fruta, estava um casal de namorados abraçados, a beijarem-se alheados de tudo que circulava à sua volta, a Felismina assustou-se e disse— que é isto Jeremias… Nos tempos de agora será assim?— Lembras-te Felismina o primeiro beijo que te dei? — Se lembro, namorávamos há três anos e dezasseis dias, vínhamos a pé da festa de S. Pedro, aproveitaste a curva da azinhaga para não sermos vistos, naquela noite não dormi, só de pensar o que seria se o meu pai viesse a saber.

Depois foram ver o moinho, onde ela ia levar o milho para fazer farinha, e ele a esperava para conversarem, mas o moinho já lá não estava, ficaram triste. Depois passaram às lagoas onde a Felismina ia dar água à burra. — Ainda te lembras Jeremias, quando eu ia à lagoa e tu aproveitavas para me ver e estar um pouquinho comigo?— Então não havia de lembrar, mas era pouco tempo, tu estavas sempre com medo da tua mãe — tens razão, mas se ela soubesse que eu estava contigo não me deixava vir sozinha, e eu gostava tanto da tua companhia. Chegaram junto da primeira, já não existia fora entupida, um pouco mais além havia outra, mas estava tudo tão mudado que ficaram na dúvida se seria ali — lembras-te Jeremias de me dizer que gostavas muito de ver as rãs em cima do penedo que ficava no meio desta lagoa, só se via quando a água já era pouca, e ver os passarinhos que aqui vinham beber—, como podia eu esquecer coisas de que gostava tanto? — Eu também gostava tanto do que me dizias, algumas vezes se calhar nem falavas verdade, mas mesmo assim eu gostava de te ouvir. Chegaram mais à frente junto aquela que era à lagoa maior da aldeia, ainda lá estava mas abandonada e não tinha água, ficaram tristes, ambos disseram,— que teria sido a nossa vida sem estas lagoas…

Era domingo, quase noite, vários ranchos folclóricos preparavam-se para dançar na aldeia, havia por ali algumas coisas que eles viram e reconheceram do seu tempo, mas outras…

Ninguém por ali os conhecia, há muito que tinham partido… mesmo sem saberem o que ia acontecer, esperaram para ver. O primeiro a dançar foi o da terra que há já muitos anos também tinha sido a sua. O apresentador disse o nome dos elementos que compunham a tocata,— os três que estão à minha direita são os vocalistas. — Será que ouvi bem Felismina? Ele disse, vocalistas, no nosso tempo não havia no bailho gente com esse nome— tens razão Jeremias, também não sei o que é. O rancho começou a dançar e os “vocalistas” começaram a cantar— escuta Jeremias! Os vocalistas são os cantadores, porque será que lhe trocaram o nome?— Está tudo tão mudado Felismina— pois está, eu bem disse que seria melhor não voltarmos à terra disse ela — mas já que viemos ficamos um pouquinho mais, disse o Jeremias.

Depois de assistirem a algumas danças que eles não conheciam, chegou a altura de mostrar aquilo que o apresentador disse ser etnografia. Aí a curiosidade apoderou-se do Jeremias e da Felismina, ele disse que iam mostrar como era a vida dos seus antepassados, certamente iam ver coisas que eles bem conheciam…

Começaram por apresentar uns meninos, dizendo que eram assim os pastores de antigamente na nossa aldeia, estavam vestidos com roupa nova e todos calçados.— Oh Jeremias, quando em crianças guardávamos o gado, eramos muitos na charneca atrás das ovelhas e das cabras, mas nenhum vestia roupa nova, mas sim feita com pedaços de pano que as nossas mães ainda conseguiam aproveitar de roupa que de tão velha já não podiam usar e todos andávamos descalços! — Todos, menos a Júlia disse o Jeremias o tio trouxe-lhe uns sapatos novos quando veio do Brasil, mas ela tinha dificuldade em andar com eles— pudera, tinha onze anos era a primeira vez que andava calçada, acrescentou a Felismina.

A seguir apareceu uma senhora de idade já avançada, com uma saca na mão, que o apresentador, de outro rancho disse ser a saca do lanche. — O lanche? O que será Felismina? — Também nunca ouvi falar em tal nome disse ela… entretanto a senhora tira um pedaço de pão e começa a comer, o que levou a Felismina a dizer, olha Jeremias o lanche era a bucha no nosso tempo. — Porque será que eles dizem que antigamente era assim se nós nem sabemos de que estão a falar, trocaram o nome às coisas…

Depois seguiram-se outros grupos, um entrou com alguns homens com enxadas às costas e senhoras com molhos de lenha à cabeça, todos a dançarem. Por momentos o Jeremias e a Felismina ficaram calados, perante o que estavam a ver. Depois comentaram entre si, mas que é isto disse o Jeremias— no nosso tempo as mulheres que iam à lenha vinham com ela diretamente para casa, algumas nem queriam que as vissem, a falta de lenha era muita o que por vezes, as levava a apanhá-la onde a encontrassem…

Os homens levavam a enxada só para o trabalho, se aparecessem a querer dançar com ela às costas, o bailho não acabava bem. Outra coisa que viram e comentaram tinha a ver com a quantidade de pares a dançar, no seu tempo não havia no bailho mais de cinco ou seis raparigas. Apesar de haver muitas na aldeia, nem sempre os pais as deixavam ir. Os rapazes iam sempre muitos.

Lembras-te quando fizeste dezanove anos e houve bailho, o meu pai não me deixou ir, toda a noite chorei, gostava tanto de poder ter estado contigo… Como era lindo ouvir-te cantar ao desafio, quando desafiavas a Julinha para cantar, o bailho parava e todos se calavam para vos ouvir.

Depois de tudo o que viram, chegaram à conclusão que já não conseguiam viver no local que também fora “seu”.

Regressaram de novo para o sítio de onde tinham vindo…

António EJ Ferreira

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