Escola de música

Porque existem tantos músicos na nossa aldeia

Todos, ou quase todos sabemos que o passado deve ser bem arrumado, não para o esquecermos, mas para não lhe andarmos constantemente aos tropeções, que por vezes nos provocam danos desnecessários. Não o devemos esquecer, se mais não for para podermos saber como chegaram até nós coisas que hoje existem e nos parece normalíssima a sua existência, quando na verdade, muitas foram extremamente difíceis de alcançar onde só a capacidade de sofrimento e a vontade de chegar sempre mais além, de alguns, tornaram possível.

Na nossa aldeia são muitas as situações que merecem chegar ao conhecimento dos mais novos, porque sabermos de onde vimos será sempre uma mais-valia quando pensamos no futuro. Esta de que vos vou falar tem a ver com a enorme quantidade de músicos que atualmente existem nos Molianos. No princípio da década de oitenta do século passado, a viver na nossa terra não havia nenhum, num tempo já distante houve alguns, mas todos muito limitados nos seus conhecimentos musicais, próprio da vida de uma aldeia distante de quase tudo, em que as pessoas por vezes se deslocavam para muito longe ver aqui mas apenas para procurar trabalho…

Nos fins da década de setenta do século passado, teve lugar a cerimónia de lançamento da primeira pedra, com a qual foi dado início à construção da sede do Clube Cultural e Recreativo Moleanense, alguém achou por bem formar um grupo de rapazes e raparigas para cantarem e dançaram contribuindo assim para dar ainda mais alegria evento. As pessoas da terra gostaram e alguns jovens desse tempo decidiram formar um “rancho  a que deram o nome de Flor do Alecrim.

Mesmo sem qualidade folclórica, o grupo foi andando por aí… cerca de três anos, altura em que várias pessoas entraram para o rancho, tudo gente jovem,  ao mesmo tempo outros se afastaram, foi a partir dessa data que se  iniciou um vasto trabalho de pesquisa e recolha de tudo que tinha a ver com os Molianos e a sua gente, e assim começaram a ser feitas as muitas alterações que vieram a justificar o nome dado ao grupo, deixando de ser Flor do Alecrim, passando a chamar-se Rancho Folclórico dos Moleanos.

casa da agostinha Nº 2

A tocata do rancho Folclórico dos  Moleanos por volta de 1985, era composta pelos acordeonistas, Maria do Carmo Cristiano e José Café, no cântaro o Augusto da Costa, no reco-reco o Luís Pavoeiro, nos ferrinhos o José Eduardo, na cana rachada o Francisco Casal, a Irene Carreira a  Etelvina Fonseca e o António Eduardo eram os cantadores.

Mas a dificuldade maior ainda estava para vir, nos fins do ano de 1986 o grupo esteve na iminência de acabar por falta de acordeonistas, depois do afastamento dos dois que mais tempo estiveram nos primeiros anos, foram contactados vários, mais de uma dezena, alguns mesmo de fora da nossa região para os substituir, trabalho que teve como principal obreiro o Manuel Carreira, mas que se revelou infrutífero, quase todos disseram não e os poucos que vieram experimentar não se conseguiram integrar.

Depois de todas essas tentativas sem resolução à vista, o Manuel teve a feliz ideia de pensar em formar uma escola de música, não se ficando apenas pela ideia, mas logo procurou saber de um professor que estivesse interessado no projeto. O José Bértolo da Silva falou-lhe no professor Sr. Álvaro Correia Guimarães, seu conhecido e de quem era amigo, no dia a seguir a terem tido essa conversa, lá foram os dois a Alcobaça falar com o senhor professor, que desde logo se prontificou a vir tentar em conjunto com a direção do rancho a formação de uma escola de música nos Molianos, exigindo apenas que o fossem buscar e levar pois não tinha meio de transporte, comprometendo-se desde logo o Manuel Carreira a assumir essa responsabilidade. Combinaram o dia da apresentação do professor aos “potenciais” músicos que viria a ter lugar no salão junto à igreja, onde a escola funcionou nos primeiros anos, durante esse período tiveram lugar obras de remodelação, o que levou a que as aulas durante alguns meses tivessem lugar no sótão da igreja, até o rancho ter a sua sede no lagar do barreirão.

E assim conforme o combinado, no dia cinco de Janeiro de mil novecentos e oitenta e sete cerca das vinte e uma horas, lá estava o professor Guimarães onde o esperavam os vários candidatos a aprender música, os que estiveram presente nesse dia foram: o Manuel Carreira, José Silvestre, José Miguel, Luís Pavoeiro, Silvério (do Casal da Charneca), Irene Fialho, Conceição Fialho, Bruno Lourenço, Sérgio Jerónimo, Nuno Pavoeiro, Catarina Pavoeiro, Carlos Severino, José Balbino, António E. Jerónimo, Dr. Manuel Luís, e Rafael Félix de Sousa.

O Sr professor foi chamando um a um fazendo a todos umas breves perguntas em forma de teste tentando saber das qualidades musicais dos potenciais músicos tendo em vista aprender música que todos diziam querer. Depois de os ouvir teve uma expressão curiosa mas muito a seu jeito, todos tem pouco jeito para a música mas não vão desistir no primeiro dia, a música para alguns é difícil de aprender mas não impossível.

A observação que fez naquele dia veio a confirmar-se uns meses mais tarde, dos que estavam presente e passaram a frequentar a escola todos aprenderam alguma coisa de solfejo, mas quanto a tocar qualquer instrumento, apenas um, o Silvério. Quando se atira a semente à terra há que esperar que ela germine e venha a produzir… e foi o que aconteceu a “semente” foi lançada e os resultados estão à vista de todos, o rancho passado algum tempo passou a ter acordeonistas em “excesso”. Atualmente existem dezenas de músicos, não só na nossa terra mas também de aldeias vizinhas que aprenderam na escola de música do rancho folclórico dos Moleanos.

Durante algum tempo as coisas não foram fáceis para manter a escola em funcionamento, depois de muitos músicos ali terem aprendido e o rancho não precisar  de mais naquela altura, a falta de sensibilidade de alguns diretores do grupo daquele tempo e a escassez de verbas para pagar ao professor, levou algumas vezes a ter de ser o Manuel Carreira a resolver a situação pagando do seu bolso os meses em atraso.

O tempo passa e as coisas mudam, mas não devemos esquecer nunca, aqueles que de forma voluntária se dispuseram a trabalhar a bem da comunidade sem nada exigir em troca, a não ser o respeito pelo trabalho e esforço despendido.

Se o Manuel não tem tido aquela feliz iniciativa, na nossa terra haveria todos os músicos que hoje existem? O rancho ainda existiria?

Depois das obras feitas, normalmente aparece sempre muita gente a dizer que também eu era… mas como diz o povo, o falar é barato e o mar é de água. Façam e provem assim que são capazes… deixem de fazer parte do grupo daqueles que sabem como tudo se faz, só não sabem é fazer.

António EJ Ferreira

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