Festas populares e religiosas nos Molianos

No passado, tinham lugar nos Molianos três festas, onde o religioso e o popular se misturavam e faziam a alegria do povo, momentos que eram vividos com muita satisfação pelas pessoas da aldeia. Eram elas, a Senhora da Conceição, o Santo António e a Senhora da Piedade, as duas primeiras, há já muito tempo que deixaram de se realizar, só a Senhora da Piedade vai resistindo, ainda que, pouco tenha a ver com a de antigamente, não só na parte mais popular, mas também na parte religiosa sofreu grandes mudanças, o que é normal, atendendo às alterações que tem acontecido nas últimas décadas.

Este texto, ainda que, com algumas limitações consequências da distância no tempo, procura dar a conhecer aos mais novos, como era a festa da Senhora da Piedade nos fins da década de quarenta e início da de cinquenta do século passado, acontecimento que era vivido por todos, novos e menos novos, de uma forma muito especial. Não só pela festa em si, mas por tudo que ela representava naquele tempo, em que as pessoas só saiam da terra para irem trabalhar. E os mais novos, só quando tinham treze ou catorze anos é que iam também com os mais velhos, particularmente para as vindimas e, só por isso começavam a sair da terra. Daí que, tudo o que acontecia na aldeia era vivido com grande intensidade. Era por essa altura que muitas pessoas que tinham deixado a terra para trabalhar noutros sítios, normalmente em Lisboa, voltavam para em conjunto com familiares e amigos viverem um dia de festa e, pelo menos naquele dia, esquecerem coisas menos boas da vida. Era também por altura da festa que alguns (mas poucos) estreavam pela primeira vez um fato novo, que teria de durar para vários anos, sem que voltassem a ter mais algum. Era verão quando acontecia a festa, mas os fatos eram usados no verão e no inverno, razão pela qual o tecido com que eram confecionados era sempre a pensar no tempo frio… Se nos tempos de agora, as pessoas se preocupam muito com o fato, antigamente não era assim, não havia dinheiro, com um fato melhor ou não, o que todos gostavam mesmo, novos e menos novos era de ir à festa.

O dia da festa era só no domingo, o sábado antes, era para a comissão com a ajuda de mais algumas pessoas organizar o arraial e ornamentar a acapela, e as meninas da quermesse organizarem o seu trabalho que não era nada fácil, atendendo à limitação de espaço, o armazém das prendas era num anexo que ficava junto à sacristia, a escolha e numeração das mesmas era feita no coro da capela, local que em condições normais era ocupado pelos homens durante a missa dominical, cabendo às pessoas por onde passava a procissão, fazer e colocar alguns arcos enfeitados com papel ou apenas com verdura “murta ”pelo menos dois, um à saída da capela e o outro junto ao Senhor Bom Jesus até onde chegava a procissão.

O domingo, era sempre muito preenchido, começava pela manhã com o deitar de foguetes e morteiros anunciando as festividades, pois naquele tempo, festa sem foguetes não era festa… depois era chegado o momento do juiz que agora terminava o seu ano de mandato acompanhado por alguns festeiros e pela banda filarmónica, irem buscar o novo juiz que o ia substituir.  O cargo de Juiz como responsável máximo da comissão da capela, tinha a duração de um ano findo o qual era substituído (isto em condições normais…), com eles ia sempre o fogueteiro e um ajudante que levava o molho de foguetes que iam deitando ao longo do trajeto, anunciando assim a sua passagem em direção às casas das pessoas que iam buscar. Também a juíza daquele ano, apesar, da sua missão começar e terminar naquele dia, vinha de casa até à festa acompanhada pela banda, normalmente trazendo à cabeça a sua oferta (fogaça como então se dizia), se ela morasse próximo do novo juiz vinham juntos. Mas havia anos em que o local onde moravam era em sítios opostos o que fazia com que os músicos, o Juiz e demais acompanhantes tivessem de fazer vários quilómetros, sempre a pé, “naquele tempo não havia transporte, menos ainda para tanta gente.” Depois faziam o trajeto no sentido inverso, voltando ao local da festa agora acompanhados dos “magistrados” e, dos rapazes e raparigas que em alguns anos transportavam os andores de bolos que tinham sido oferecidos em cumprimento de promessas feitas a Nossa Senhora.

Quando chegavam ao local da festa já a manhã ia avançada, e aproximava-se a hora da missa, cerca da uma da tarde sempre muito concorrida, algumas vezes, as pessoas não cabiam na capela. Terminada a missa em que participavam vários sacerdotes (normalmente três), iniciava-se a procissão em direção ao termo de Évora, onde normalmente seguiam todos os sacerdotes, até ao Nicho, ou ao Senhor Bom Jesus como o povo lhe chamava, e continua a chamar ainda hoje, não com o mesmo sentimento de outros tempos, em que muitas pessoas quando por ali passavam, olhavam e benziam-se e, alguns homens tiravam o boné ou barrete em sinal de respeito e devoção pelas imagens ali expostas. Na procissão ia sempre muita gente, todas as imagens que se encontravam na capela seguiam em andores próprios, assim como os andores de bolos, e muitas senhoras com ofertas que transportavam à cabeça, normalmente, galinhas, coelhos, azeite e outros produtos da terra, milho ou trigo, cumprindo assim promessas feitas ao longo do ano, não raramente em momentos difíceis na vida. Eram também muitas as crianças normalmente vestidas com um fato branco comprido, a quem chamavam anjinhos, a sua presença tinha a ver com promessas feitas pelos pais quando na vida alguma coisa já estava, ou podia vir a correr menos bem. Também a filarmónica voltava a fazer mais uma caminhada desta vez integrada na procissão, onde de vez em quando tocavam músicas adequadas ao momento, assim como o fogueteiro e o ajudante que seguiam na frente e iam deitando fogo ao longo do percurso.

No regresso ao local da festa eram muitas as pessoas que aproveitavam para vir na procissão e trazer o farnel para ser comido no arraial, ou, nos terrenos particulares que ficavam junto à capela, à sombra das muitas oliveiras que por ali existiam. Terminada a procissão, procedia-se à entrega da bandeira ao novo Juiz que assim iniciava o seu mandato, ritual que era feito junto à porta principal da capela onde tinha lugar um pequeno discurso de circunstância que servia sobretudo, para fazer agradecimentos aqueles que tinham colaborado ao longo do ano. Era também o dia em que muitas pessoas da aldeia que viviam e trabalhavam na zona de Lisboa, aproveitavam para vir à terra e assim terem oportunidade de conviver com familiares e amigos, alguns que há já muito tempo não se viam, na aldeia, só não ia à festa os que andavam de luto, ou aqueles a quem a falta de saúde já não lhes permitia. Era bonito de ver, o gosto que as pessoas tinham que os amigos comessem alguma coisa do seu farnel, e estes não se faziam rogados, não importava o que cada um tinha para dar a comer, podia ser o coelho, a galinha, os ovos cozidos, os queijos, o bacalhau albardado entre outras coisas, o vinho quase todos levavam de casa, os que não levavam compravam nas tabernas improvisadas no espaço da festa, alguns retribuindo assim o favor que os taberneiros faziam guardando-lhe o farnel enquanto durava a parte religiosa da festa que terminava depois da entrega da bandeira. Só depois era chegada a altura de todos irem comer, (as tabernas naquele não pertencia à organização da festa). Era também a partir dessa altura que andavam pelo arraial alguns rapazes a vender fogaças que tinham sido oferecidas, sobretudo as que eram compostas de comida, passavam várias vezes junto das pessoas a ver quem mais oferecia, quando lhes parecia que não havia mais interessados iam entregar a quem tinha oferecido o valor mais alto. Naquele tempo, as receitas recolhidas na festa que revertiam a favor da capela, eram apenas as que resultavam da venda das fogaças, da quermesse e do peditório que era feito no arraial.

Presença habitual naquele tempo, era a de dois elementos da GNR, que tinham como missão zelar pela “ordem” durante todo o dia, algumas vezes eram improvisadas celas, onde eram instalados à força, os menos bem comportados, estas eram numa pequena casa de recolha de utensílios ou produtos do campo que se situava no terreno junto ao arraial e outra num espaço próximo do lagar de azeite que ficava do lado do sul do adro da capela.

Durante a tarde a banda filarmónica tocava no coreto e, as pessoas aproveitavam para dançar, mas alguns anos parecia haver diretrizes para que isso não fosse permitido… por vezes, os elementos da GNR intervinham e as coisas complicavam-se, mas nada que ao cair da noite não ficasse resolvido. Algumas vezes acontecia, que ao chegar ao fim do dia em que tinha feito muito calor… os agentes em serviço já não sabiam muito bem para que lado ficava Alcobaça…

Ao cair da noite era o regresso a casa (naquele tempo não havia luz elétrica), a maioria deixava transparecer a alegria que lhe ia na alma, depois de um dia intensamente vivido em verdadeira confraternização, alguns ainda que o sem o manifestarem, regressavam a casa já com o pensamento na festa do próximo ano.

Algumas curiosidades relacionadas com a festa: o coreto que um pouco antes talvez em fins da década de quarenta era construído em madeira, certo dia enquanto a banda tocava, a estrutura quebrou-se e alguns músicos e instrumentos caíram por terra.

Houve um ano em que o Juiz não foi substituído, existiam dívidas e enquanto as mesmas não foram saldadas ele continuou a ocupar o lugar, segundo consta por falta de interessados para o substituir.

Em cada ano a festa tinha uma Juíza, que era a mesma que no ano anterior tinha sido a ajudante, em que a diferença era, no ano de ajudante a oferta normalmente era menos valiosa.

Por aquele tempo era grande a rivalidade das pessoas que residiam nas várias regiões que tinham como centro aglutinador a capela. Durante a procissão, seguiam alguns elementos vestindo uma capa branca levando na mão um bastão, estes tinham como missão “coordenar” a procissão, houve um ano em que dois seguiam próximo um do outro, ao passar no local onde se encontram as duas freguesias, um deles disse para o outro, vamos a entrar na Rússia, este sorriu mas não deu resposta.

Houve um homem que prometeu, se a mãe que estava muito doente melhorasse, fazer todo o trajeto da procissão debaixo do andor de Nossa Senhora da piedade, a mãe melhorou, e ele cumpriu a promessa, ainda foi convidado pelo sacerdote a não o fazer dada a grande dificuldade que iria ter, mas ele insistiu e cumpriu mesmo. Dizem aqueles que assistiram, que foi muito difícil pois teve de fazer o trajeto sempre agachado. O cumpridor já falecido, foi o senhor Francisco Fonseca, ou (Chico da Moda) como era mais conhecido.

O dia da festa foi para muitos, durante alguns anos, o único em que bebiam imperial, para a maioria foi mesmo a primeira vez. Pois naquele dia o dono de uma cervejaria famosa de Alcobaça, montava uma tenda no local onde cabiam várias dezenas de pessoas e aí vendia a famosa imperial.

A rivalidade naquele tempo era tanta que havia pessoas que chegavam a contar os foguetes e morteiros que eram deitados, para saber de qual lado da freguesia deitavam mais. Essa rivalidade começou a ser minimizada, ainda que muito lentamente, com a vinda para a freguesia de prazeres de Aljubarrota do senhor prior Boaventura, (espero falar sobre esse assunto num trabalho próximo).

António EJ Ferreira

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