O tempo que ninguém queria

De Cobumba para Bissau (4)

Chegou o dia do regresso a Bissau, nessa manhã a única viatura que tínhamos operacional avariou, todas as coisas que tínhamos connosco para levar para a L.D,G que nos foi buscar, tiveram de ser transportadas às costas, mas por essa altura eu estava fisicamente bastante fragilizado, tive que pagar a um homem da população para me levar o caixote com os meus pertences, tendo eu levado apenas a G.3, as cartucheiras, e um pequeno malote onde transportava dois ou três quilos de peso, mesmo assim, ao fim de escassas centenas de metros até chegar ao barco, já não conseguia caminhar mais. Há pouco tempo tinha passado por lá o médico, que creio estava sediado em Bedanda a quem eu me queixei, tive como resposta; de facto estás doente, mas não te posso mandar para Bissau.

Deixamos Cobumba descendo o rio Cumbijã, alguns quilómetros mais abaixo estava outra companhia à espera para seguir connosco para a cidade, vindo de Cafal Balanta dessa companhia fazia parte um vizinho nosso, o Victor Santos, da Lagoa do Cão. Se um vizinho deixava aquela zona, um outro que o tinha ido render ficava bastante triste e só: era o José Balbino, sabendo que eu vinha a caminho de Bissau quis vir ver-me, não foi fácil para ele «como não era para qualquer um», despedir-se de um vizinho com a comissão quase terminada…e ele ainda no inicio e numa zona tão má como era aquela.

Normalmente as companhias quando vinham do mato para a cidade era para regressarem à Metrópole, ou fazerem trabalhos de menor risco. Sabíamos ir estar mais alguns meses na cidade, o que não sabíamos era que a nossa companhia ia passar a ser cem por cento operacional, só os criptos exerciam a sua especialidade, os outros, todos faziam os mesmos serviços, para além do serviço de segurança à cidade que constava de percursos a pé durante a noite na periferia, em grupos de três ou quatro homens, serviços ao paiol, ao palácio do governador, no cais quando chegava algum barco da Metrópole, e também serviço junto ao arame que em alguns sítios circundava a cidade.

Como se tal não chegasse com vinte e seis meses de tropa fizemos uma coluna a Farim, viagem de alto risco, também por essa altura a minha saúde não era a melhor, pela primeira vez tinha tido paludismo, dois dias antes de se realizar a coluna fui ao médico tentando que ele me dispensasse de serviços pesados, tive sorte, fui dispensado de ir até Farim, apenas eu e outro camarada que estava também de baixa não fomos.

Naquele tempo em que tivemos em Bissau, o quartel ficava a poucos quilómetros do centro da cidade, na «Combis em Brá,» e nós de vez em quando íamos até lá. Na cidade havia muito movimento apesar de mesmo por lá as coisas começarem a não ser totalmente seguras. Por essa altura, rebentou um engenho explosivo no café Ronda, sempre muito frequentado por militares, também dentro do Q.G houve uma explosão, e no Pilão certa noite houve tiroteio durante bastante tempo, estando a nossa companhia pronta para sair, estiveram mais de uma hora em cima das viaturas à espera de ordem para avançar, era cerca da meia noite os tiros pararam e o estado de prontidão foi suspenso, nesse dia eu estava de cabo dia razão, pela qual se a companhia tem saído eu teria ficado no quartel.

Um dos locais com paragem obrigatória para quase todos que vagueavam pela cidade, era o café Bento, ou a 5ªR.E.P. como alguns lhe chamavam. Assim que nos sentávamos, ainda antes do empregado de mesa, chegavam os engraxadores que se preparavam e insistiam para nos engraxar as botas a troco de dois pesos e meio, ou três. Naquela tarde sentei-me na esplanada e logo apareceu um dos muitos engraxadores “o marreco” disse-lhe que só dava dois pesos e meio, ele começou a engraxar as botas, quando acabou a primeira disse-me, olha que são três pesos, eu disse-lhe que não, e ele levantou-se e foi embora, deixando-me com uma bota engraxada e outra não, mas o mais caricato é que as minhas botas uma era mais velha que a outra e eu coloquei primeiro a nova a jeito de ser engraxada, e assim a mais velha mais mal ficou a parecer ao pé da engraxada, ainda prometi os dois pesos e meio aos outros engraxadores que estavam por ali para me engraxarem a outra, mas solidários com o marreco nenhum quis. Não me restou outra alternativa a não ser sair pela porta oposta à esplanada e voltar a sujar a bota engraxada, com terra para não parecer tão mal.

Os serviços continuavam na cidade, o tempo normal de comissão já há meses que tinha passado, e nós sem saber para quando o nosso regresso à Metrópole. Poucos dias antes de virmos embora tivemos uma baixa, o furriel Trindade « o homem que tantas minas tinha levantado» ao ser atropelado pela viatura que lhe ia levar o almoço, quando se encontrava em serviço com alguns homens num dos postos de guarda junto ao arame farpado que existia em alguns sítios em redor da cidade.

Faltavam três dias para o nosso regresso fomos informados que teríamos de fazer mais uma coluna a Farim. Á tarde fomos levantar as viaturas que íamos levar na madrugada seguinte, estávamos completamente arrasados a dois dias de terminar o nosso tempo de Guiné, irmos fazer uma coluna a Farim, para essa também eu já tinha levantado viatura, mas a poucas horas do inicio da viagem alguém teve o bom senso, e decidiu que não seriamos nós a ir na coluna.

Faltavam dois dias mas não tínhamos a certeza que seria assim, só quando nos encontramos dentro do Boeing e já no ar acreditamos que era desta que a nosso regresso ia acontecer, embarcamos perto do meio dia em Bissau no dia dois de Abril, chegamos ao fim da tarde a Lisboa.

Passados trinta e oito anos, da minha chegada á Guiné dando uma volta pela memória encontrei os factos aqui relatados, certamente muitos não terei conseguido lembrar-me, mas fiquei satisfeito com aqueles que consegui lembrar em apenas três semanas.

Se alguém chegar a ler este relato de vida que foi a minha, durante o tempo de tropa que passei em África, e que foi também o de muitos jovens do meu tempo, em particular aos que passaram pela Guiné, verá que as coisas agora não são tão más como parece!

Outubro de 2010

António Eduardo Jerónimo Ferreira

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