Quando se ouviam os galos cantar

Na aldeia de Molianos, no passado ainda não muito distante, era um sítio onde o silêncio era uma constante, ao ponto de qualquer barulho menos normal que acontecia era logo ouvido a uma grande distância, o que levava todas as pessoas a procurar saber o que teria acontecido.  Assim, quando se ouvia chorar em altos gritos era sinal que alguém tinha falecido, como naquele tempo não havia telefones ou outros meios de comunicação, a notícia era levada a outros familiares por alguem que ia chorando pelo caminho. Também no início das guerras coloniais sempre que algum militar era mobilizado e a notícia chegava á família, havia choro, lamentando a ida de um dos seus para a guerra. Mas os barulhos que se ouviam na aldeia nem sempre era sinal de desgraça ou coisa parecida. No tempo da apanha da azeitona a caminho do olival ou no regresso a casa, ranchos de homens e mulheres faziam grande algazarra exteriorizando a alegria que lhe ia na alma, ou camuflando o tempo menos bom porque alguns estariam a passar

Pela altura do entrudo, “cerca de um mês antes, ” começava o barulho próprio da época anunciando que a terça feira mágica se aproximava. Esse anúncio chegava com cantigas ao desafio, e com o ditar das pulhas, o que permitia dizer coisas que fora dessa época não eram bem aceites… um ditava a pulha, e o grupo acompanhava separando as frases dizendo em voz alta, vivou!!!

São ainda alguns os que se recordam de ouvir o zurrar do burro do ti`Pinto quando este andava a trabalhar lá para o sítio das covadas. Ou ouvir a voz do mandador aquando do plantio das muitas vinhas que ainda há poucos anos existiam na aldeia, alguns  cavadores ainda não esqueceram o que mais gostavam de ouvir ao mandador, alto e assenta a espada, todos ferravam a enxada e, esperavam que alguém lhe trouxesse  a pinga, depois de terem bebido, à ordem do mandador voltavam a cavar.

Outro dos sons que se ouvia muitas vezes e todos reconheciam era o da corneta da senhora Emília Peralta, com que chamava o marido ou outros familiares quando estes não estavam por perto. Em todas as casas, era possível escutar o cantar dos galos anunciando o amanhecer de um novo dia, era o “despertador” daquele tempo. Se pela manhã todos gostavam de o ouvir cantar, se ele cantava à tarde muitas pessoas não gostavam, diziam que esse  cantar trazia agoiro… Também se podia ouvir e distinguir o cantar  das muitas variedades de pássaros que cantavam durante o dia cada um à sua maneira.  O sino que existia na torre da capela, “apesar de pequeno” fazia-se ouvir em toda a aldeia, chamando as pessoas para a missa, ou anunciando que alguém tinha falecido.

Nos dias de hoje, esses sons que faziam parte da vida das pessoas deixaram de se ouvir, abafados ou destruídos por outros que o progresso se encarregou de trazer. E, aqueles que se vão ouvindo, facilmente passam despercebidos, pela indiferença com que as pessoas passaram a encarar o espaço que as rodeia. A ausência de solidariedade entre vizinhos, passou a ser normal, “antigamente não era,”  então porquê preocupar-se com barulho estranho que possa estar a ouvir?…

AEJF

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